Efeitos da guerra comercial

A disputa entre EUA e China pode ter efeitos muito nocivos para a economia mundial

O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2018 | 03h00

O Brasil vem obtendo algum ganho com a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China. A elevação da taxação imposta em julho pelo governo de Washington sobre um volume expressivo de importações de produtos chineses levou a China a adotar medida idêntica sobre as importações de produtos americanos e acabou forçando as duas partes a buscar outros fornecedores para os bens sobretaxados. Importadores americanos aumentaram suas encomendas de aço brasileiro, para compensar as dificuldades para comprar aço chinês; já a China aumentou suas compras da soja brasileira, para substituir parte do que importava dos Estados Unidos.

Esses ganhos têm contribuído para aumentar as exportações e manter um saldo expressivo da balança comercial (de janeiro a agosto, o superávit somou US$ 37,8 bilhões). São, porém, ganhos limitados, de duração incerta e de origem contestável. Sua característica mais negativa é o fato de que resultam de um quadro anômalo provocado por uma disputa entre as duas maiores potências econômicas do planeta que pode desarranjar um sistema de comércio internacional que, embora apresente muitas falhas, vem propiciando a contínua dinamização das trocas internacionais e estimulando o crescimento mundial.

Em meio ao ceticismo sobre o desempenho das exportações mundiais gerado pela disputa entre os dois gigantes econômicos, o Brasil conseguiu aumentar suas vendas para os dois países de produtos como siderúrgicos, proteína animal e soja. Parte do que um dos países em disputa comercial deixou de comprar do outro passou a importar do Brasil.

Entre janeiro e julho, as exportações brasileiras de soja para a China aumentaram 18%, de acordo com levantamento feito pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços a pedido do Estadão/Broadcast. Parte do aumento está sendo interpretada como uma indicação de que o Brasil passou a ocupar o espaço antes ocupado pelos Estados Unidos. Em 2017, a China importou 97 milhões de toneladas de soja, produto do qual é o maior importador mundial. No caso da carne de porco, as exportações brasileiras para a China aumentaram 199% nos sete primeiros meses de 2018, na comparação com o mesmo período do ano passado.

A sobretaxação, pelos Estados Unidos, do aço originário da China e da União Europeia, por sua vez, abriu espaço para a entrada de mais aço brasileiro no mercado americano. O produto brasileiro não foi sobretaxado pelo governo do presidente Donald Trump, mas sua entrada no mercado americano ficou sujeita a uma cota anual. Esse limite foi afrouxado pela permissão para as empresas americanas solicitarem a exclusão do regime de cota quando esta for insuficiente para suas necessidades ou o bem não for produzido no país. Assim, entre janeiro e julho deste ano, as exportações brasileiras de produtos siderúrgicos para os Estados Unidos aumentaram 38% em valor (de US$ 1,3 bilhão para US$ 1,8 bilhão) e 14,2% em volume.

O setor exportador vê oportunidades para o aumento das exportações de produtos como automóveis, fertilizantes e resinas para os Estados Unidos. Já para o mercado chinês estão sendo registrados aumentos significativos das exportações de suco de laranja e frutas. As exportações de minério de ferro para a China, porém, diminuíram, em razão das restrições à entrada do aço chinês no mercado americano.

Para o desempenho futuro do comércio internacional, e da economia mundial, porém, a disputa comercial entre os Estados Unidos e a China pode ter efeitos bem mais nocivos. Mudanças ou reduções de fluxos comerciais, alterações nos sistemas de preços, fechamento ou deslocamento de fábricas provocados pela guerra comercial afetam os parceiros comerciais dos dois países envolvidos na disputa. Na pior hipótese, a redução do fluxo internacional de mercadorias decorrente da guerra comercial leva também à queda dos investimentos internacionais em setores vitais para muitas economias e à desaceleração da economia mundial.

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