Ela e as quatro Marias de Sete Lagoas

O dia 15 que passou foi o Dia do Professor. Decidi deixar de lado meu tema usual, a economia, e escrever em homenagem às minhas quatro primeiras mestras fora de casa. E à minha mãe, Juldete, única também em sua capacidade de ensinar. Aquelas, todas de nome Maria: Pontes Lanza, Braga, Rachid e José Machado. Nessa ordem as tive em cada um dos quatro anos do antigo curso primário, que hoje corresponde às primeiras quatro séries do ensino fundamental. Cursei-o em Sete Lagoas (MG), no Grupo Escolar Arthur Bernardes, da rede estadual de ensino.

Roberto Macedo*, O Estado de S.Paulo

17 Outubro 2013 | 02h10

Em casa, minha mãe também era professora. Hoje centenária, na juventude passou por escola de nível médio, voltada para o magistério. Mas só o exerceu por pouco tempo, pois passou a cuidar dos oito filhos que foram chegando. Nisso se esmerou também em oferecer-lhes adequadas condições de aprendizado no próprio lar. Como a disponibilidade da coleção Thesouro da Juventude, de 18 volumes, voltados para ciência, arte e ética numa linguagem popular. Havia também uma enciclopédia e muitos clássicos da literatura nacional e internacional, incluída uma coleção de obras de Machado de Assis. Mamãe também ajudava muito nas lições de casa e ao ensinar sobre o cotidiano da vida. Toda a família está sempre a homenageá-la.

Quanto às Marias, ignoro se alguma ainda sobrevive, mas tenho a face delas e suas atitudes marcadas na memória. Lembro-me mais da primeira, pois o início da vida escolar é para sempre um momento marcante na vida de cada um. E não só pelo aprendizado em si, como também pela sociabilidade que a convivência com outras pessoas enseja. Maria Pontes, como era chamada, ensinou-me a ler, escrever e fazer contas. Assim, fui alfabetizado e "numerizado" logo no primeiro ano de escola. Hoje fico perplexo ao saber que nas escolas públicas há quem chegue ao terceiro ano sem completar essa etapa.

Ela era exigente e durona, em particular com sua filha e minha colega, Vera Maria. Costumava dar lições de leitura e compreensão reunindo quatro ou cinco alunos em torno de sua mesa. Certo dia, num desses grupos, eu aguardava minha vez, mas por alguns momentos fiquei desatento e a olhar para trás, por cima do meu ombro direito. Puxando-me a orelha do mesmo lado, ela retornou minha atenção para o devido lugar. Mas pegou leve e não guardei mágoas.

Foi ela que me nomeou para meu primeiro "cargo público". A sala de aula, sempre a mesma, tinha uma pequena estante de livros à disposição dos alunos, até para as citadas lições. O conjunto tinha nome pomposo, Clube de Leitura Castro Alves. Tornei-me seu tesoureiro, pelo fato de meu pai ser bancário e ela presumir que eu soubesse lidar com dinheiro. Meu trabalho consistia em arrecadar mensalmente de cada aluno dez centavos do antigo cruzeiro, um valor então conhecido como tostão, com o objetivo de comprar mais livros para a estante.

Além de competentes e exigentes, essas quatro Marias tinham a assiduidade como outro traço marcante. Hoje há notícias de que o excesso de faltas de professores é um dos problemas que a escola pública enfrenta. Havia professoras que até se excediam em sua dedicação. Lembro-me de uma que cuidava de um aluno muito pobre que andava descalço e era cronicamente atacado por bichos-de-pé, que ela ajudava a extirpar.

Nos três anos seguintes, além de avanços em Aritmética e Língua Pátria, hoje Matemática e Português, lembro-me de que vieram ensinamentos de História e Geografia. Recordo-me também de aulas que incluíam cuidados de higiene pessoal.

Memorável também era a hora do recreio, a escola oferecia um amplo espaço, coberto de árvores e cercado apenas por grades. Hoje vejo escolas públicas muradas e com portões de chapas de aço, entre outras razões, para evitar o assédio de traficantes de drogas.

E havia celebrações como a do Dia da Árvore, já indicando uma preocupação ecológica. Num desses dias integrei uma cantiga de roda. Girava-se cantando um refrão que enaltecia as árvores, com intervalos em que cada um dos participantes ia para o centro e cantava representando uma delas. Coube-me o papel de coqueiro, a enaltecer seus frutos e as respectivas cocadas. Noutra celebração, da Independência, antes houve competição para decidir quem faria o papel de dom Pedro I a ecoar o Grito do Ipiranga. Venceu aluno de voz forte que ainda jovem se tornou locutor da rádio local.

Infelizmente, são raríssimos os contatos com os colegas da época. Hoje, com a internet, até crianças têm a sua rede de contatos que pode ser preservada e atualizada pós-formatura. Mas sei que a criança que gritou "Independência ou Morte", Carlos Afonso Moreira Soares, se tornou engenheiro químico. Outro colega, Márcio Reinaldo Dias Moreira, é o atual prefeito da cidade.

Vinte anos depois do grupo escolar, ao buscar escolas para minhas filhas, vi com tristeza que as públicas haviam perdido muito em qualidade. Mas houve pelo menos uma melhoria, a do acesso das crianças a essas escolas. Naquela época, muito da pobreza se concentrava na zona rural, sem transporte e outros meios para chegar a escolas quase que só existentes nas cidades. Hoje é ampla a circulação de ônibus, vans e Kombis escolares pelas estradas rurais, uma tarefa executada por prefeituras e seus prestadores de serviços.

Assim, ampliou-se o acesso, mas há que retomar a qualidade que a escola pública tinha no passado. No muito de que ela carece, há também o que aprender com outra grande mestra, a história das escolas públicas e das antigas práticas educacionais brasileiras. E cabe também puxar as orelhas das famílias para que atentem para a necessidade de garantir bom ambiente educacional em casa, igualmente indispensável à boa educação de seus filhos. Sozinha, a escola não resolve.

*Roberto Macedo é economista (UFMG, USP e Harvard), professor associado à Faap e consultor econômico e de ensino superior.

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