Em ação, a fábrica de dólares

A produção de dinheiro será a primeira atividade a funcionar a plena carga nos Estados Unidos neste ano. Se der certo, a Casa da Moeda poderá puxar outras indústrias, mas por enquanto é só uma aposta do Federal Reserve (Fed), empenhado em desatolar a economia. O Fed anunciou na quarta-feira a disposição de lançar no mercado mais US$ 1,15 trilhão para facilitar a expansão do crédito e, ao mesmo tempo, aliviar a situação do setor imobiliário. Serão US$ 300 bilhões para recomprar títulos do Tesouro nos próximos 6 meses, US$ 750 bilhões para absorver títulos podres baseados em hipotecas e mais US$ 100 bilhões para sustentar débitos das agências oficiais de crédito imobiliário. As decisões foram anunciadas depois da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (o Copom americano), acompanhadas de uma nota com três informações: não se espera melhora da economia a curto prazo, o juro básico permanece na faixa de 0% a 0,25% e a máquina de fazer dinheiro vai rodar mais velozmente. A decisão de aumentar a oferta de moeda já era esperada. A política de juros, o principal instrumento usado pelo Fed nos últimos 20 anos, está esgotada. Não se pode levar a taxa nominal para baixo de zero e é preciso, portanto, usar outra ferramenta para combater a recessão. Na Inglaterra, na semana passada, na reunião de ministros do Grupo dos 20 (G-20), formado pelas maiores economias avançadas e emergentes, falou-se no uso de políticas monetárias não-convencionais. Na entrevista coletiva depois do encontro, ninguém quis definir essas políticas, mas a decisão do Fed provavelmente contém pelo menos parte da reposta. A ação direta sobre a quantidade de dinheiro deixou de ser habitual há algumas décadas, quando o manejo da taxa de juros se tornou a linha de ação preferida. Mas a emissão de moeda pelo Fed, neste ano, vai muito além dos valores indicados na quarta-feira. Com os novos US$ 750 bilhões, só as compras de papéis lastreados em hipotecas imobiliárias (sem contar, portanto, os títulos do Tesouro) devem chegar a US$ 1,25 trilhão. Segundo a nota do Fed, não há risco de novas pressões inflacionárias a curto prazo. Ao contrário: a inflação corrente, de acordo com o Fed, está abaixo do nível necessário para a combinação de crescimento econômico e a estabilidade de preços a longo prazo. Se essa avaliação for correta, haverá espaço bastante, por algum tempo, para o banco central americano se concentrar no esforço de estimular a economia com fortes injeções de moeda. Essas injeções se acrescentam aos enormes estímulos fiscais concedidos pelo Tesouro, até agora sem efeito visível. Segundo críticos, a economia só se moverá com algum vigor e certa segurança quando se completar a limpeza dos balanços dos bancos, ainda sobrecarregados de créditos podres. Pressões inflacionárias são muito improváveis a curto prazo, mas poderão manifestar-se quando a economia voltar a crescer, talvez no próximo ano. A advertência tem sido feita mais abertamente por economistas europeus. Para combater a recessão, muitos governos têm aumentado seus gastos vigorosamente e os bancos centrais têm emitido moeda, com destaque para o caso americano. Na ata de sua última reunião, distribuída nessa quinta-feira, o Copom menciona as políticas de expansão monetária adotadas no mundo rico, mas não aponta o perigo de recrudescimento da inflação no mercado internacional. Vencida a recessão, no entanto, o excesso de dinheiro no mercado e a dívida acumulada pelos governos, especialmente o dos Estados Unidos, poderão converter-se em fontes de problemas. O presidente Barack Obama já mostrou consciência desse risco e por isso anunciou, recentemente, um programa de redução de gastos para os próximos anos - uma tentativa de atenuar, pelo menos, as consequências das enormes despesas concentradas neste ano e do endividamento crescente do Tesouro. A rolagem da dívida pública, na fase de recuperação, poderá pressionar o mercado financeiro e forçar a elevação dos juros, criando dificuldades para todos os países. Todos os governos, incluído o brasileiro, deveriam pensar nisso.

, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2009 | 00h00

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