Em busca de uma liderança digna e capaz

O Brasil não depende de um grande estadista, mas também não merece um desqualificado

*Fabio de Biazzi, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2018 | 03h06

Em palestra proferida no dia 14 de novembro, na Columbia University, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que “não temos um De Gaulle”. É certo, mas por que pensar que o Brasil precisa de um De Gaulle, Churchill, Thatcher, Obama ou Merkel? Já seria razoável feito para o País não ter de sofrer nas mãos de um populista, um mentiroso, um autoritário, um despreparado, um desonesto ou alguém que tenha dois, três ou todos esses graves defeitos. O fato de não existir a alternativa de um De Gaulle não implica ter de optar por algum Trump, Maduro, Fujimori ou Kirchner. O Brasil não precisa necessariamente de um grande estadista, mas também não merece um desqualificado. O que precisamos e devemos buscar é um líder digno e capaz.

Antes de tratar da questão da escolha do próximo presidente, é preciso fazer uma ressalva, pois é seguro que a eleição não é a única coisa que importa. Mudanças como as reformas da Previdência, fiscal e política são essenciais, assim como o enxugamento do Estado, o voto distrital misto e o fim da impunidade dos criminosos de colarinho branco, com sua prisão após a sentença em segunda instância. Para complicar a implantação dessas mudanças, é preciso perceber que a escalada continua: a Lava Jato e os anseios da imensa maioria da população encontram resistência crescente de significativa parte daqueles instalados nos poderes em Brasília.

Recentemente essa escalada foi expressa pelos brilhantes jornalistas José Nêumanne Pinto, Ricardo Noblat e Fernando Gabeira, que escreveram, respectivamente: 1) “Com pânico de perder com o mandato os privilégios, a borra política nacional permitiu-se abrir mão de anéis para manter os longos dedos das mãos que afanam. Mas nestes três anos e oito meses de Lava Jato, alguns fatos permitiram a seus maganões investir contra essa progressiva redução da impunidade”; 2) “o Congresso e o governo amadurecem novas iniciativas para asfixiar mais ainda o combate à corrupção. Eles estão vencendo”; e 3) “para se defender, o sistema político não hesita em colocar a democracia em risco”. Feitos esses alertas, percebe-se que há um desafio imenso e anterior à escolha de um novo presidente: vencer a escalada – consolidando os avanços da Lava Jato – e fazer acontecer as mudanças já citadas. Para que isso se realize, vale refletir sobre outras sábias palavras do próprio Gabeira: “Suspeito que seja hora de levantar da cadeira”.

Feita a ressalva, retorna-se à questão do voto. Talvez seja interessante que se estruture, por meio de critérios claros e concisos, o caminho para a escolha do próximo presidente, de modo que ela não resulte em novo desastre. Traçando um paralelo com o que ocorre nas grandes organizações e seguindo as lições de algumas das maiores referências no tema liderança – nomes como Peter Drucker, James Clawson, Jack Welch e Warren Bennis –, votar da melhor maneira possível significa evitarmos candidatos com características e atitudes de manipuladores e farsantes e escolhermos candidatos que apresentem traços e atitudes que denotam capacidade e dignidade.

Os comportamentos negativos já foram detalhados em texto prévio neste espaço e podem ser sintetizados no esforço de evitar: 1) quem mente ou defende posições diferentes das que defendia no passado; 2) quem tem um discurso de divisão, de “nós contra eles”; 3) os que apoiam ideias e/ou têm posturas autoritárias; e 4) aqueles que se apresentam como salvadores da Pátria e são personalistas, pois podem pôr em risco as instituições e o Estado de Direito.

Por sua vez, a busca por indivíduos capazes e com atitudes dignas implica: 5) procurar quem sempre se mostrou confiável, íntegro, coerente e respeitoso; 6) escolher quem tem capacidade e grandeza para se cercar de pessoas sérias, competentes e honestas; 7) identificar quem tem os conhecimentos, habilidades e maturidade emocional fundamentais ao cargo; 8) optar por quem parece ter uma visão de futuro clara, construtiva e extensiva a todos os seus representados; 9) preferir quem é também capaz de apontar soluções necessárias, mesmo que impopulares; e 10) votar em quem mostra na vida pública capacidade de julgamento e de tomada de decisões acertadas.

Quem varreu esses dez critérios e achou que tal escolha é bastante difícil não deve desanimar, pois a realidade é mesmo esta: a escolha não será simples, muito poucos candidatos terão um bom número de características positivas e, não menos relevante, a História mostra incontáveis farsantes, manipuladores e indivíduos psicologicamente perturbados que alcançaram posições de poder para, depois, frustrar ou trair os anseios da população de seus países. Entretanto, os candidatos não são todos iguais e temos de fazer a melhor escolha possível e, mesmo antes disso, incentivar a candidatura de pessoas que preencham da maneira mais adequada as características e comportamentos de um líder eficaz e em quem possamos genuinamente nos espelhar, pois grandes presidentes e cidadãos que têm respeito próprio e se fazem respeitar são construídos mutuamente.

Ao fim desses processos – das mudanças, da escalada e da escolha – não mais nos encontraremos no mesmo precário patamar civilizatório atual: ou subimos alguns degraus e nos aproximamos dos países mais avançados do planeta ou rolamos escada abaixo e passamos a nos assemelhar vergonhosamente às republiquetas conduzidas por grupos interessados apenas em sua preservação e na exploração de visões populistas em proveito próprio. A construção de uma sociedade plenamente civilizada e democrática depende do esforço contínuo e de contínua vigilância por seus cidadãos. Estamos diante de mais uma oportunidade e temos plenas condições de aproveitá-la, mas precisamos levantar rapidamente da cadeira e, em 2018, votar com critério.

*Engenheiro de produção, mestre e doutor em engenharia pela Escola Politécnica da USP, diretor acadêmico da Brain Business School, é professor do Insper e autor do livro ‘Lições Essenciais Sobre Liderança e Comportamento Organizacional’

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