Em busca do espírito animal

O objetivo central da nova equipe econômica, o retorno ao crescimento, só será atingido se for despertado o espírito animal dos empresários - uma condição difícil de ser alcançada neste momento. A confiança do empresário industrial é a mais baixa para um mês de janeiro em 16 anos, segundo sondagem da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgada na terça-feira. Na maior parte do mundo é difícil de encontrar entusiasmo em relação à economia, mas o executivo brasileiro se destaca como um dos menos otimistas, segundo pesquisa realizada em 77 países, no fim do ano, pela PricewaterhouseCoopers (PwC).

O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2015 | 03h16

A pesquisa da CNI cobriu 32 setores da indústria de transformação. Na média, o índice de confiança dos consultados ficou em 44,4 pontos, bem abaixo do nível observado um ano antes (valores abaixo de 50 pontos denotam pessimismo). No levantamento da PwC, com grandes organizações, só 30% dos executivos brasileiros se disseram muito confiantes quanto ao crescimento de suas empresas em 2015. No ano anterior, 42% dos consultados haviam mostrado otimismo.

Na maior parte do mundo, foi exibido pouco entusiasmo. Mas a média foi bem superior à do Brasil: 39% dos empresários se disseram otimistas quanto à evolução de seus negócios neste ano. Foi o mesmo porcentual do ano passado, embora a avaliação da economia global tenha piorado, com a parcela dos otimistas declinando de 44% para 37%.

Baixa confiança empresarial resulta em baixo investimento. Sem razoável otimismo, dificilmente o dirigente de empresa se arriscará a comprar máquinas e equipamentos, a ampliar instalações e a aumentar o quadro de pessoal. No caso do Brasil, o mau estado de espírito dos empresários é particularmente perigoso, depois de quatro anos de estagnação industrial e de demissões.

A política econômica dos últimos quatro anos baseou-se num enorme equívoco. O governo agiu como se o grande problema da economia fosse a insuficiência da demanda. Isso pode ter ocorrido na pior fase da crise, entre o segundo semestre de 2008 e os primeiros meses de 2010, mas, a partir daí, o cenário interno mudou. O problema passou a ser um excesso de demanda e uma crescente insuficiência do lado do investimento e da exportação.

Os efeitos desse desajuste foram visíveis na inflação e na deterioração das contas externas, mas o governo foi incapaz de formular esse diagnóstico. Vários documentos do Banco Central (BC) chamaram a atenção para os principais desequilíbrios, sempre em linguagem suave e com muita diplomacia, mas com suficiente clareza.

Qualquer leitor atento poderia perceber as indicações do pessoal do BC a respeito da "demanda robusta", das condições de consumo, das limitações do lado da oferta e da importância de contas públicas em bom estado. Mesmo exibindo a expectativa de evolução das contas públicas na direção da "neutralidade", os economistas do BC deixaram sempre claro que a situação fiscal poderia melhorar, em algum momento, mas continuava precária.

De certa maneira, esses documentos do BC consolidariam a agenda de qualquer equipe com um mínimo de seriedade: arrumar as finanças públicas, abandonar os estímulos mal dirigidos e restabelecer o equilíbrio necessário à estabilização dos preços e à retomada do crescimento. O caminho deve passar pelo aumento da produtividade geral da economia e pela conquista da competitividade. Parte importante da tarefa será ampliar o investimento produtivo, público e privado.

Combinar o estímulo ao crescimento com o aperto inevitável de um programa de ajuste pode ser complicado. Mas o desafio é incontornável e, se o governo agir com determinação e clareza na arrumação de suas contas, assim como na política anti-inflacionária, um elemento importante para a retomada da confiança estará garantido. Será preciso, ainda, abandonar a política de favores a setores e grupos selecionados. O espírito animal pode ser prodigiosamente criativo, mas depende, para despertar, de boas doses de uma vitamina especial - a confiança.

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