Em defesa só de si mesmos

Que ninguém se iluda. Se ganhadores surgirem do movimento iniciado por um grupo de dirigentes empresariais e sindicais que se dizem unidos em torno do que chamam "coalizão capital-trabalho para a competitividade e o desenvolvimento" serão os organizadores do movimento. Apesar de o nome dessa estranha união de interesses mencionar temas de grande importância para o País, como ganhos de competitividade e a retomada do crescimento econômico, não é o bem-estar coletivo ou o progresso da Nação que comove seus organizadores. O que de fato move esses dirigentes - e outros que vierem a subscrever o manifesto - são seus interesses de curto prazo, como os resultados de caixa das empresas e o salário dos trabalhadores que os sindicalistas dizem representar.

O Estado de S.Paulo

07 Março 2015 | 02h06

Para chegar a essa conclusão, basta ver o conteúdo do manifesto já assinado por representantes da indústria e de centrais sindicais, mas ainda aberto a novas adesões, e que, como mostrou o Estado (5/3), deverá ser encaminhado à presidente Dilma Rousseff, ao Congresso, a governadores e aos ministros da Fazenda, do Planejamento e do Desenvolvimento.

Não há, a rigor, nada além do que parte do empresariado industrial vem pedindo há décadas, numa monótona repetição de frases sem nenhum conteúdo inovador - inovação, aliás, é ideia que raramente passa pela mente desses dirigentes. Falam, como sempre, do alto nível dos juros internos e da taxa de câmbio, que, na sua avaliação estreita dos problemas que afetam o setor produtivo, estão entre os maiores obstáculos à modernização e ao avanço da produtividade da indústria. Citam, neste caso com razão, a carga tributária elevada e a cumulatividade de impostos.

Durante anos, boa parte do setor industrial acomodou-se às políticas protecionistas que reduziam a concorrência no mercado interno. Nesse período, diversos segmentos não precisaram buscar maior produtividade e eficiência nem investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação - sobretudo inovação -, pois dispunham de um mercado quase cativo, que absorvia o que lhe ofereciam.

Não se prepararam para competir no exterior, onde acabaram perdendo mercado. A abertura tomou-lhes também fatias do mercado interno, como mostram os coeficientes cada vez mais altos de presença de artigos estrangeiros no comércio de manufaturados no País.

Da mesma forma, as políticas públicas ignoraram as transformações da economia brasileira e internacional e continuaram a se basear nos instrumentos tradicionais, como crédito subsidiado de instituições públicas para setores escolhidos e tributos - de um lado, com taxação mais alta sobre determinados bens importados; de outro, com subsídios para estimular a produção doméstica.

Nenhuma das partes - governo, empresariado, sindicalistas - se preocupou com ganhos crescentes de produtividade e com a modernização competitiva do parque produtivo, medidas indispensáveis para conquistar mercados num ambiente de concorrência cada vez mais acirrada. Infraestrutura, mão de obra preparada, equipamentos e tecnologia atualizados e gestão eficiente estão entre os fatores que elevam a eficiência produtiva. Pouco se avançou nesses campos.

Câmbio e juros podem atrapalhar. Mas, se a indústria tivesse alcançado maior produtividade, seriam problemas menores e não impediriam avanços crescentes no mercado internacional, como os que vêm conquistando outros países que há pouco mais de uma década estavam no mesmo estágio de desenvolvimento do Brasil.

De sua parte, dirigentes sindicais que aderiram ao manifesto se mostram, como sempre, interessados apenas em problemas imediatos - alguns relevantes, reconheça-se -, cuja solução pode lhes render prestígio perante as bases. Mas, como os dirigentes industriais, perderam - se é que alguma vez a tiveram - a perspectiva de médio e de longo prazos. Não se preocuparam nem parecem preocupados em melhorar o nível da mão de obra, preparando-a para atender às demandas de um mundo cada vez mais complexo e exigente. Não mudaram nada nas últimas décadas.

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