Em guerra com Kadafi

As ações aéreas e navais das forças da Otan na Líbia nos últimos dias dissiparam as dúvidas que ainda pudessem subsistir em relação ao objetivo último da resolução sobre o país norte-africano que as potências ocidentais submeteram ao Conselho de Segurança das Nações Unidas há duas semanas. O documento, aprovado sem os votos de Brasil, Rússia, Índia e China, autorizou o uso de "todas as medidas necessárias" para impedir que o coronel Muamar Kadafi levasse a cabo o extermínio dos civis que se levantaram contra a sua ditadura de 41 anos e das populações que lhes pudessem ser simpáticas.

, O Estado de S.Paulo

30 Março 2011 | 00h00

Mas a partir do momento em que, para todos os efeitos práticos, a Otan assumiu o papel de aviação rebelde líbia - abrindo caminho com os seus bombardeios para a insurgência reconquistar posições perdidas no leste do país e avançar a oeste, rumo à cidade natal do tirano, Sirte - confirmaram-se os prognósticos de que a intervenção humanitária embutia a meta de acabar com o regime de Kadafi e interferir na sua sucessão. Inicialmente, a coalizão anglo-franco-americana atacou as tropas que estavam para tomar Benghazi, a "capital rebelde", onde o autocrata prometeu chacinar os seus inimigos.

A ameaça da atrocidade iminente legitimou os ataques. As bases militares atingidas ao mesmo tempo por mísseis lançados do Mediterrâneo eram outro alvo implícito na decisão do Conselho de Segurança de impor na Líbia uma zona de exclusão aérea a fim de salvar vidas civis dos caças de Kadafi. Já o bombardeio do complexo que abriga o reduto do ditador na capital, Trípoli, claramente foi além do já amplo mandato concedido pela ONU. A ofensiva foi suspensa depois das críticas da Liga Árabe, que apoiara o bloqueio aéreo. "Queremos proteger os civis e não bombardear mais civis", reagiu o secretário-geral do organismo, Amir Moussa.

Com o passar dos dias, enquanto os EUA confirmavam a intenção de transferir o comando das operações à Otan e a aliança anunciava que a força aérea líbia deixara de existir, poderia parecer que os ataques só seriam mantidos para salvaguardar as populações civis na mira de Kadafi. Mas isso, acompanhado das exortações para que o tirano se vá, seria pouco para os governos francês e britânico que tomaram a iniciativa da intervenção contra o seu até recentemente sócio comercial. O que ele continuaria a ser não fosse a revolta que o converteu em estorvo para os interesses de Paris e Londres no petróleo líbio - e em oportunidade para fazer bonito perante a rua árabe.

Do outro lado do Atlântico, um vacilante Barack Obama, contrastando com a determinada secretária de Estado Hillary Clinton, custou a se engajar na operação da qual ele mais do que depressa queria deixar de ser a figura de proa. Agora, Obama conta uma história diferente. Falando pela primeira vez sobre a Líbia aos americanos, em rede nacional, ele se apresentou como o líder efetivo da mobilização armada contra um déspota que não hesitaria em perpetrar um massacre contra o seu povo. "Como presidente", vangloriou-se, "recusei-me a esperar as imagens de matanças e valas comuns para então agir."

Da mesma forma que diz ter feito o que não fez, Obama diz que não quer fazer o que fará - forçar a "mudança de regime", como dizia seu antecessor Bush em relação a Saddam Hussein, no Iraque. Ele reconheceu o óbvio: os EUA não podem repetir na Líbia a aventura de uma invasão. Mas, disse eufemisticamente, os líbios ganharam "tempo e espaço" para decidir o seu destino. O fato é que, sem apoio militar como o que passaram a receber, e não mais por estritos motivos humanitários, os revoltosos não tendem a ser páreo para um Kadafi entrincheirado em meio às suas Brigadas de Defesa, disposto a resistir até o fim.

A lógica, portanto, aponta para mais operações de cobertura em apoio às carentes e desorganizadas forças da insurgência. Mas uma coisa é fazê-lo em pontos como Ras Lanuf e Bin Jawad, afinal retomados. Outra será ir a Trípoli. Parece cedo demais para tratar da Líbia pós-Kadafi, como a coalizão começou a fazer ontem em Londres.

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