Em honra das vítimas

Verão de 2019 é a data prevista para a conclusão das obras de reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz destruída em um incêndio em 2012

O Estado de S.Paulo

25 Março 2018 | 03h00

Esta prevista para o verão de 2019 a conclusão das obras de reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF), localizada na Península Keller, no interior da Baía do Almirantado, na Ilha Rei George. Em 2012, um incêndio de grandes proporções destruiu 70% da estação de pesquisas administrada pela Marinha do Brasil, causando a morte dos tenentes Carlos Alberto Vieira Figueiredo e Roberto Lopes dos Santos, que tentavam combater as chamas.

A nova estação, de US$ 100 milhões – equivalente a cerca de R$ 330 milhões –, corre o risco de se tornar apenas um monumental esforço de engenharia e logística, sem produzir os importantes resultados científicos que dela se esperam. Na semana passada, um grupo composto por 17 importantes pesquisadores e cientistas que atuam na área enviou uma carta para o ministro Gilberto Kassab, da Ciência e Tecnologia, e para o comandante da Marinha, almirante Eduardo Ferreira, alertando as autoridades para a grave escassez de recursos que afeta o Programa Antártico Brasileiro (Proantar).

De acordo com a avaliação dos cientistas, o Proantar “está gravemente ameaçado de interrupção” por falta de recursos para financiamento de bolsas e projetos de pesquisa e pode ser interrompido no ano que vem se nada for feito. “Rogamos a vossas excelências que sejam estudadas ações emergenciais para darmos continuidade às pesquisas científicas na Antártida e não tenhamos a situação insólita de uma casa antártida sem cientistas”, concluem os pesquisadores na carta, à qual o Estado teve acesso com exclusividade.

Em 1975, o Brasil aderiu ao Tratado da Antártida, celebrado em 1959 entre Argentina, Austrália, Bélgica, Chile, França, Japão, Nova Zelândia, Noruega, África do Sul, a então União Soviética, Reino Unido, Irlanda do Norte e Estados Unidos. O Tratado visa à cooperação internacional para o fomento de pesquisas científicas no continente gelado, preservando-o de qualquer ação que não seja voltada para produção de ciência para fins pacíficos.

Nove anos após aderir ao Tratado da Antártida, em 1984, o Brasil inaugurou a EACF para, como explica a Marinha, realizar “pesquisas científicas em diversas áreas, como observação de fenômenos atmosféricos, inventário da fauna e flora local, monitoramento da qualidade do ar, entre outros estudos ligados à biologia, meteorologia, geofísica, entre outros campos”.

Os estudos realizados pelos pesquisadores brasileiros na EACF são fundamentais para a compreensão das mudanças no meio ambiente, principalmente porque a Antártida, por sua ação de controle das circulações atmosféricas e oceânicas, é o principal regulador térmico da Terra, afetando o clima e as condições de vida em todo o planeta. A relativa proximidade do continente com o Brasil faz com que estes efeitos sejam potencializados aqui, um dado que torna o trabalho científico que é desenvolvido na Antártida ainda mais relevante.

A presença brasileira na Antártida atende a propósitos científicos e geopolíticos. Uns não podem estar dissociados dos outros. “Não basta a presença militar, tem de haver ciência”, disse Jefferson Simões, glaciologista da UFRGS e vice-presidente do Comitê Científico para Pesquisas Antárticas (Scar, na sigla em inglês). “Casa vazia não faz ciência”, resumiu Simões, que alertou para o risco de a nova EACF ser uma estação “com a alma” do estádio de futebol Mané Garrincha, em Brasília: “Bonito por fora, vazio por dentro, um estádio de futebol sem futebol”.

É da maior importância para o desenvolvimento da produção científica do Brasil que o Proantar receba dos órgãos competentes, vale dizer, do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Marinha, a atenção devida para a solução dos graves problemas que o ameaçam. Não só para honrar o histórico de serviços prestados à ciência pelos pesquisadores brasileiros que já passaram pela EACF desde 1984, mas, sobretudo, em honra dos dois militares que morreram tentando salvar a estação.

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