Enem em tempos de VAR

Vêm de quem não compreendeu a prova deste ano os ataques aos responsáveis

Maria Inês Fini, O Estado de S.Paulo

26 Novembro 2018 | 03h00

Nem meu nem seu, o Enem é do Brasil. Assim ele nasceu e assim completa 20 anos, enquanto se prepara para os próximos desafios. Em 1998, quando o então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, imaginou um vestibular nacional, era nos jovens que ele pensava, por não querer que se submetessem à correria aflita de uma instituição para outra. Buscamos referências acadêmicas sólidas, constituímos um grupo de bons professores/pesquisadores e criamos o Exame Nacional do Ensino Médio.

Desde logo queríamos privilegiar a avaliação de estruturas de inteligência por meio da averiguação de processos cognitivos associados aos conteúdos tradicionais da escolaridade básica, e não só investigar informações retidas na memória. Afinal, informação não é conhecimento. De um lado, buscávamos valorizar as estruturas linguísticas e socioculturais e, de outro, as lógico-matemáticas e científicas. São elas a base das operações inteligentes que nos permitem conhecer o mundo a partir dos referenciais socioculturais próprios de cada pessoa, constituídos no conjunto das relações sociais que circundam sua vida.

Esses referenciais foram construídos com forte apoio da escola, por meio dos saberes da ciência, arte e filosofia, acumulados em 21 séculos de história da humanidade e também previstos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, de 1996. Quando foi aplicado pela primeira vez, em 1998, e ainda hoje, quando celebra 90 milhões de inscrições, o Enem privilegia a capacidade de leitura e a compreensão de textos, seja nos enunciados dos problemas das questões das provas objetivas, seja nos textos de apoio para a elaboração da redação.

A cada edição as questões de todas as áreas de conhecimento avaliadas procuram apresentar tipologias e gêneros de textos, além de autores consagrados, em torno de temas que circulam no universo cultural com o qual interagem. Ou deveríamos fazer um filtro, escolhendo valores morais ou religiosos, censurando a comunicação com os jovens? Não seria desrespeito e mesmo uma falsa proteção privá-los de uma reflexão por meio assuntos que circulam exaustivamente na cultura do País? E quem teria tamanho direito de decidir o que é certo ou errado?

Centenas de professores brasileiros, de todas as regiões, participam da elaboração das provas do Enem, guiados por metodologia reconhecida como uma das melhores do mundo. A coordenação desse trabalho é das valorosas equipes técnicas de servidores concursados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), sob a responsabilidade de sua presidente. As provas do Enem 2018 repetem o compromisso firmado desde sua primeira edição: o respeito à juventude brasileira. Por isso o Enem propõe uma reflexão qualificada de múltiplos matizes, sejam conceituais, literários, históricos, sociológicos ou culturais, todos próprios do mundo em que vivemos. Se um processo tão respeitado foi arbitrariamente julgado como falta grave, não teríamos direito ao VAR (Video Assistant Referee, o árbitro de vídeo)?

Para enfrentar os desafios que a contemporaneidade e as novas demandas sociais e políticas públicas impõem o Enem deve continuar evoluindo. A implementação do Novo Ensino Médio e a homologação da Base Nacional Comum Curricular para essa etapa de ensino tornarão o currículo mais flexível e mais conectado com as aspirações dos jovens do nosso século, além de possibilitar-lhes a escolha de itinerários formativos diversificados do ponto de vista acadêmico ou profissionalizante.

Tantas mudanças exigirão o redesenho também do exame que avalia o ensino médio. Como os demais exames e avaliações sob responsabilidade do Inep, o Enem acompanha as determinações do Conselho Nacional de Educação. E são as diretrizes recentemente aprovadas pela entidade que conduzirão os devidos ajustes conceituais e metodológicos para que se pratique justiça na educação brasileira, uma vez que no bojo do que é avaliado se sinaliza o que deveria ter sido ensinado.

O que se prevê é que um novo modelo de Enem contemple, de um lado, o que será determinado como formação geral nas cinco áreas de conhecimento, de maneira integrada, talvez como primeira etapa do exame. De outro, a ideia é que o participante possa escolher, já na inscrição, uma só área de conhecimento vinculada ao interesse para a qual pretende direcionar sua futura profissão. É prudente e respeitoso que as escolas do País tenham tempo para os devidos ajustes em sua proposta curricular e para que possam preparar os alunos para os novos exames. Isso significa que o Enem 2019 terá a mesma estrutura do atual.

A discussão em torno de alguns itens da prova de 2018 reforça nossa convicção acerca de aspectos relacionados à cidadania que sonhamos para a juventude plural, sem preconceitos e eivada de empatia pelo próximo. Convém reafirmar que dialeto é marcação identitária de alguns grupos e o reconhecimento das características, e mesmo a função que representa, simboliza um conceito muito adequado da realidade linguística brasileira. O assunto exigiu conhecimento científico. Errou quem o interpretou como propaganda de origem sexual, esta, sim, baseada em estereótipos.

Se a avaliação é um farol que ilumina o caminho percorrido, tenho plena convicção de que permitimos que os participantes de 2018 demonstrassem o que sabem e são capazes de realizar como tarefa cognitiva ante os problemas propostos nas questões, revelando competência de leitura e interpretação de textos, capacidade que parece ter faltado a leitores apressados ou aos radicais agressores. Estes, sem mesmo terem compreendido a prova, dirigiram e ainda dirigem ataques pessoais inusitados aos responsáveis.

Ler é um ato que mobiliza conhecimentos acadêmicos, mas também crenças e valores. Espero que os participantes se tenham valido de sua autonomia de pensamento, tão necessária para a futura autonomia de ação, para interagirem com a prova. É essa autonomia a expressão da liberdade que tanto valorizamos em nossa jovem democracia. 

*DOUTORA EM CIÊNCIAS, É PRESIDENTE DO INEP

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