Enfim, a lição de casa

Com a nova alta de juros e o aperto fiscal iniciado pelo Ministério da Fazenda, torna-se muito provável o cenário de uma economia travada por alguns meses - e o próprio ministro Joaquim Levy já admitiu a possibilidade de uma breve recessão. Depois de tantos erros e desmandos na política econômica, um ajuste indolor seria um milagre. Se a política for mantida com firmeza, pelo menos os fundamentos da economia serão reparados e o País terá melhores condições para voltar ao crescimento. A alternativa seria desastrosa. Com mais um ano de gastança e de tolerância à inflação, o Brasil voltaria à condição de pária no mercado global. O enorme esforço de reabilitação iniciado há duas décadas seria jogado no lixo.

O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2015 | 02h06

A lição de casa começa a ser feita com pelo menos quatro anos de atraso, já que os desmandos se agravaram no final do segundo mandato do presidente Lula. A presidente Dilma Rousseff agravou os erros e condenou o País ao baixo crescimento combinado com inflação muito alta. Voluntarismo, populismo e erros de diagnóstico empurraram o País ladeira abaixo.

Com a nova elevação, os juros básicos voltam a 12,25%, taxa em vigor entre 9 de junho e 20 de julho de 2011. Depois disso, a taxa ainda chegaria a 12,5%, mas no fim de agosto daquele ano a política seria afrouxada. Com a reputação abalada, em abril de 2013 o BC foi forçado a mudar de rumo e a iniciar um novo aperto monetário, muito gradual e insuficiente para derrubar a inflação. Com a crescente gastança, o baixo crescimento econômico e as desonerações fiscais mal concebidas, as contas do governo pioraram rapidamente. Em vez de tomar juízo, as autoridades tentaram maquiar seus balanços.

Alguns empresários e economistas poderão criticar a estratégia do novo ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central. Poderão condenar a opção pela "ortodoxia", contra as promessas de campanha da presidente Dilma Rousseff. Mas é tolice indisfarçável insistir no velho rótulo criado para classificar as tendências do pensamento econômico. A opção pelo ajuste fiscal e pelo aperto monetário é simplesmente uma reconciliação com o bom senso.

Os desajustes da economia brasileira são visíveis para qualquer pessoa disposta a reconhecer os fatos. Para vencer a inflação e recriar condições de crescimento, o governo terá de conter a expansão do consumo privado, reforçar as contas públicas e estimular o investimento produtivo. Há uma evidente insuficiência de oferta e os empresários só voltarão a investir, depois de quatro anos de estagnação, se readquirirem confiança.

Os empresários da indústria poderão reclamar do aperto, mas sua expectativa poderá mudar se o governo se mostrar firme na condução da política de ajuste e alguma previsibilidade for reintroduzida na economia. O empresário brasileiro é hoje, afinal, um dos menos otimistas do mundo.

Suas opiniões sobre os problemas da economia nacional coincidem amplamente com os diagnósticos produzidos pelas pesquisas de competitividade. A produção no Brasil é prejudicada pelas deficiências da infraestrutura, pela carência de investimento, pela baixa produtividade da mão de obra e pelo excesso de impostos. A solução desses problemas passa inevitavelmente por uma recuperação dos fundamentos da economia, a começar pelo conserto das contas públicas e pelo controle da inflação. Todos sabem disso, embora alguns pareçam esquecer de alguns fatos evidentes, como a relação entre a alta de preços, muito maior no Brasil que na maior parte dos outros países, e o desajuste cambial.

Reconquistar a confiança dos empresários é objetivo declarado do ministro Joaquim Levy. Não haverá retorno ao crescimento econômico sem a retomada do investimento produtivo. Do lado público, isso dependerá de uma administração muito melhor dos recursos do Tesouro. Do lado empresarial, o aumento da confiança será um fator decisivo. A recuperação da confiança, disse em Davos o ministro, poderá ocorrer mais cedo do que se espera. Por enquanto, seu jogo é levar adiante o ajuste apenas iniciado. Se der certo, os fundamentos da economia ficarão mais fortes e o espírito animal dos empresários mais uma vez se manifestará. Sem a disposição da presidente da República, porém, nada disso será possível.

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