Engolindo desaforos

Dinheiro, simpatia política e disposição do governo para engolir desaforos não bastam para garantir ao Brasil uma relação econômica razoável com os parceiros sul-americanos. Ao contrário: quanto mais passivo se mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante das exigências de outros governantes da região, mais eles parecem animados a erguer barreiras comerciais a produtos brasileiros e a elevar o tom de suas cobranças, sejam ou não minimamente justificáveis. Neste momento, interesses do governo e de empresas brasileiras são contestados e postos em xeque em vários países da América do Sul. Na Venezuela, novas normas cambiais limitam a importação de celulares brasileiros, porque só uma empresa, a estatal CANTV, está autorizada a comprar pelo dólar oficial. Com isso, o acesso ao mercado venezuelano passa a depender das decisões de uma única empresa - e sua política, hoje, favorece a filial de uma companhia chinesa. Além disso, o governo venezuelano vem dificultando a remessa de dinheiro para o pagamento das importações. Isso é mais uma fonte de problemas para empresas brasileiras que comerciam com a Venezuela. Esse país continua sendo um mercado importante para a produção de vários setores da economia brasileira, mas o comércio depende cada vez mais do arbítrio das autoridades e não de regras claras e de procedimentos previsíveis. Os problemas comerciais com a Argentina também se acumulam e não há sinal de solução próxima. As medidas protecionistas aumentaram desde o agravamento da crise internacional, no terceiro trimestre do ano passado, quando licenças de importação de vários produtos deixaram de ser automáticas. Barreiras ou ameaças de barreiras têm-se multiplicado e Brasília, em vez de defender os interesses legítimos das indústrias brasileiras, aconselhou seus dirigentes a negociar com os empresários argentinos. Mais que isso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ouviu, sem reagir, as acusações de protecionismo, de subsídios e até de uso do câmbio para favorecer os empresários nacionais. Produtores de tecidos, autopeças e móveis foram forçados a negociar com os empresários do maior sócio brasileiro no Mercosul, enquanto os industriais do setor automobilístico foram levados a examinar novas normas para o comércio setorial - sempre de acordo com exigências apresentadas pelos empresários argentinos e apoiadas, como sempre, pelas autoridades de Buenos Aires. Enquanto isso, o governo paraguaio mantém as pressões por mudanças no acordo de Itaipu. O governo brasileiro acenou com a possibilidade de revisão de tarifas, não mais que isso, e ofereceu financiamento de US$ 1 bilhão para programas de desenvolvimento industrial do Paraguai. O governo de Assunção consentiu em examinar essa oferta de apoio financeiro, mas não desistiu de nenhuma reivindicação relativa a Itaipu. Essa obra foi totalmente custeada pelo Brasil e metade da energia produzida pertence ao Paraguai. Reservou-se ao Brasil o direito de comprar a eletricidade não consumida pelo vizinho, mas também essa exclusividade tem sido contestada. Para o Brasil, trata-se de respeitar os termos de um acordo assinado livremente por dois governos. Para o governo paraguaio, trata-se de reescrever a história, para apresentar-se como quem procura romper a subordinação a uma potência imperialista. O comércio com o Equador já foi afetado por medidas protecionistas adotadas no ano passado. Com a Bolívia, a relação continua na dependência dos interesses políticos do presidente Evo Morales, inspirado por seu mestre Hugo Chávez. Uma das atividades preferidas de todos os governantes "progressistas" eleitos na América do Sul, nos últimos anos, tem sido contestar os interesses brasileiros. O presidente Lula, no entanto, continua a agir como cabo eleitoral desses governantes e a aceitar todas as suas desfeitas, como se essa atitude fosse uma questão de justiça e um imperativo dos interesses nacionais. Preferiu empenhar-se numa integração regional imaginária, menosprezando as possibilidades de acordos comerciais com os grandes mercados do mundo desenvolvido. Tendo se transformado num defensor do populismo sul-americano, subordinou o País aos objetivos de governantes populistas. O preço é pago pelo Brasil real.

, O Estadao de S.Paulo

09 de abril de 2009 | 00h00

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.