Ensaio de uma greve geral

A ideia é fazer da greve dos bancários um ensaio preparatório de uma greve geral contra as reformas trabalhista e previdenciária que a equipe econômica do governo está preparando

O Estado de S.Paulo

13 Setembro 2016 | 03h03

Deflagrada por tempo indeterminado com apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT), braço sindical do Partido dos Trabalhadores (PT), a greve nacional dos bancários vai muito além da reivindicação de aumento real de 5% nos salários, mais o repasse da inflação de 9,31%, a ampliação do piso e a concessão de mais três salários a título de Participação nos Lucros e Resultados das instituições financeiras. Envolvendo uma categoria profissional formada por mais de 512 mil trabalhadores, dos quais 142 mil lotados na região metropolitana de São Paulo, a greve também tem um propósito político reconhecido publicamente por suas lideranças.

Em discursos pronunciados nas assembleias realizadas em todo o País sob coordenação da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro, eles entoaram o mantra “fora Temer” e afirmaram que a paralisação também tem por objetivo desgastar o governo do novo presidente da República. A ideia é fazer da greve dos bancários um ensaio preparatório de uma greve geral contra as reformas trabalhista e previdenciária que a equipe econômica do governo está preparando. “As mudanças que esse governo pretende fazer são assustadoras. Somente a mobilização pode evitar que direitos duramente conquistados sejam jogados no lixo”, afirma a presidente do Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, Adriana Nalesso. “Tenho o maior orgulho de participar de assembleias que relegarão os golpistas para o lixo da história”, diz Marcelo Rodrigues, funcionário da Caixa Econômica Federal e dirigente da CUT no Rio de Janeiro.

A última paralisação dos bancários ocorreu em outubro do ano passado e teve a duração de 21 dias. Mas os grevistas circunscreveram suas reivindicações a questões de natureza basicamente salarial. Entre 2004 e 2015, os bancários obtiveram aumento salarial real de 20,85% e de 42,1% no piso. Eles constituem uma das poucas categorias que possuem convenção coletiva de trabalho com validade nacional.

Agora, além da oposição às iniciativas de Temer, as lideranças dos bancários querem denunciar a crise econômica, discutir as relações entre capital e trabalho no sistema financeiro e protestar contra o tratamento diferenciado que a mídia dispensaria aos banqueiros, em detrimento dos bancários. Esses são temas que há muito tempo fazem parte dos programas do PT e da CUT.

Os líderes dos bancários acusam os grandes bancos de reduzir a participação dos trabalhadores na riqueza gerada nas atividades de intermediação financeira. Também alegam que os bancos estão substituindo caixas, escriturários e gerentes com salários mais altos por funcionários recém-contratados com salários mais baixos. Reclamam da diferença entre o salário médio dos baixos e médios escalões da categoria e o salário médio dos altos executivos do setor financeiro. Alegam que os bancos têm destinado aos acionistas um valor maior do que o correspondente à folha de pagamento de seu pessoal. Por fim, criticam os investimentos das instituições financeiras na expansão da rede de agências digitais, sob a justificativa de que, ao substituir as tarefas dos bancários por computadores de última geração, eles provocam desemprego em massa. “Não é justificável que o setor mais lucrativo do País possa demitir milhares de trabalhadores para reduzir custos”, afirma Juvandia Moreira, presidente do Sindicato dos Bancários de São Paulo e uma das coordenadoras do comando nacional de greve.

As justificativas para a greve nacional dos bancários, no atual contexto político, mostram a forma de agir das lideranças sindicais vinculadas à CUT e ao PT. Elas misturam de modo deliberado questões trabalhistas importantes, como a rotatividade do setor bancário, com questões políticas, como a oposição a Temer. E, sem levar em conta o impacto econômico e institucional de suas iniciativas, silenciam sobre o acintoso esquema de corrupção arquitetado pela companheirada lulopetista para roubar empresas públicas, como a Petrobrás, e até fundos de pensão dos trabalhadores das estatais.

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