Ensino, pesquisa e extensão universitária

O princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, apregoado na Carta Magna de 1988, em seu artigo 207, não existe na prática no sistema universitário brasileiro. E, por consequência, não há razão para ser preceito constitucional. Essa norma deveria ser revista o quanto antes pelo Congresso. Muitos artigos têm sido escritos e muitos seminários realizados sobre essa questão. Amplas discussões desenvolvidas, mas muito pouca concretude para assinalar as ações acadêmicas que confirmem essa indissociabilidade.

GABRIEL MÁRIO RODRIGUES, presidente da ABMES, é reitor da Universidade Anhembi Morumbi, O Estado de S.Paulo

02 Novembro 2011 | 03h05

Em tese, a relação entre ensino, pesquisa e extensão, quando bem articulada, deveria conduzir a mudanças significativas nos processos de ensino e aprendizagem, colaborar efetivamente para a formação profissional de estudantes e professores e fortalecer os atos de aprender, de ensinar e de formar profissionais e cidadãos.

Entretanto, a prática tem mostrado que quanto mais qualificado estiver o docente, mais ele tende a se afastar do ensino, notadamente o de graduação, e da extensão para se dedicar à pesquisa e à orientação na pós-graduação. Por outro lado, os projetos de extensão em geral deveriam cada vez mais permanecer associados aos conteúdos das disciplinas e das atividades de ensino de graduação e de pós-graduação e ter mais participação de estudantes, técnicos e professores. A pesquisa, por sua vez, também se apresenta, regra geral, desvinculada, fragmentada e desarticulada do conjunto do ensino - da graduação, da pós-graduação e da extensão.

De qualquer forma, para ter uma boa aprendizagem é imprescindível que tenhamos bons professores titulados. A pesquisa é importantíssima para o desenvolvimento das ciências, mas o ensino não precisa da pesquisa básica para sobreviver. O mesmo não podemos dizer da extensão, uma atividade primordial para os universitários poderem treinar e se capacitar, como também se articular com a comunidade. A vocação das instituições particulares de ensino superior, além da busca pela qualidade, está na extensão, e não na pesquisa - que é cara e o aluno não pode ser gravado por ela.

Uma realidade que pouca gente conhece é que as instituições particulares de ensino superior, as IES, usam muito como estratégia de treinamento de seus estudantes o atendimento à comunidade. São milhares de projetos desenvolvidos anualmente pelas IES e que atestam o envolvimento dos universitários com os problemas sociais do País.

A interdisciplinaridade torna-se efetiva. O currículo de cada curso determina a ação social a ser desenvolvida. Cada equipe de alunos tem um professor responsável acompanhando e orientando suas intervenções. Os professores supervisionam todo o atendimento de maneira que qualquer atividade prática realizada pelos estudantes se torna também um momento de aprendizagem.

Nessas práticas, os alunos de Medicina atendem pessoas que não podem arcar com os custos de tratamento. Os estudantes de Fisioterapia atendem na academia-laboratório. Os de Quiropraxia e de Enfermagem, no spa laboratório da escola. Os universitários de Turismo organizam excursões para crianças da periferia conhecerem museus, irem ao zoológico e visitarem o centro da cidade. Os de Direito, devidamente escoltados por seus professores, prestam aconselhamento sobre problemas de ordem jurídica que as famílias pobres do bairro apresentam. Enfim, alunos de todo o Brasil dos cursos de Pedagogia, Letras, Odontologia, Administração, Música, Artes, Design, Moda, Psicologia, Arquitetura, Comunicação, Veterinária e dezenas de outros levam seus conhecimentos às comunidades que lhes são mais próximas.

Os números atestam isso: pesquisa recente do Núcleo de Estudos de Mercado e Pesquisa de Opinião (Marknet) da Universidade Tuiuti do Paraná, patrocinada pela Associação Brasileiras de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES), mostrou que as instituições particulares estão totalmente engajadas no processo de mobilização e de mudança social, incentivando seus professores, funcionários e alunos a dedicar tempo, conhecimento e experiências pessoais a proporcionar benefícios em prol da melhoria da qualidade de vida da sociedade. A pesquisa mostrou que nove em cada dez instituições particulares atuam em projetos de responsabilidade social.

Tais ações são realizadas com recursos próprios das instituições e beneficiam comunidades circundantes. Participaram dos projetos de responsabilidade social, na amostra pesquisada, 17.602 profissionais e 150.789 alunos, o que representa, numa projeção nacional, 106.214 profissionais e 1.054.521 universitários - peças-chave para a concretização desses eventos.

Considerando todos os atendimentos e ações extensionistas realizados, observa-se que a responsabilidade social das instituições atingiu 3.465.047 pessoas, o que mostra, numa projeção nacional, que mais de 18.462.607 indivíduos foram beneficiados pelos programas desenvolvidos.

As instituições de ensino superior caminham cada vez mais para além da função de graduar alunos. Ser uma organização socialmente responsável e ter agregado à sua imagem o compromisso com a educação superior de qualidade já fazem parte da missão da maioria das universidades, dos centros universitários e das faculdades do País.

Com o objetivo de mostrar à sociedade as atividades de extensão desenvolvidas pelas IES ao longo do ano, a ABMES promoveu no dia 24 de setembro mais um Dia da Responsabilidade Social do Ensino Superior Particular. Participaram mais de 700 IES, 75 mil alunos e foram atendidas mais de 850 mil pessoas. Em um único dia ocorreu tudo o que aqui está relatado, uma incrível realização do ensino particular brasileiro.

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