Entraves à desejada parceria

Como parte de sua estratégia destinada a evitar a perda, para a China, da influência e do espaço econômico conquistados pelo Japão em diferentes regiões, o primeiro-ministro Shinzo Abe visitou o Brasil na semana passada, abrindo nova oportunidade para o aprofundamento da cooperação entre os dois países em diversos campos.

O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2014 | 02h05

O fato de Abe ter viajado com dirigentes de mais de 40 dos principais grupos econômicos japoneses, muitos com longa presença no Brasil, e de ter participado de encontros empresariais em Brasília e em São Paulo denota seu interesse na ampliação da cooperação econômica. Como destacou o governante japonês, porém, a cooperação pode se estender para as áreas de ciência e tecnologia, saúde e educação.

São muitas as oportunidades de cooperação, observam de tempos em tempos governantes e empresários dos dois países. Além de o Brasil abrigar a maior comunidade de origem japonesa fora do Japão - estima-se em 1,8 milhão o número de japoneses e descendentes que vivem no País -, é forte a presença de trabalhadores brasileiros no Japão. No campo econômico, o comércio bilateral é expressivo e grandes investimentos japoneses são feitos aqui há mais de 60 anos.

Houve, nas últimas décadas, um período de esfriamento das relações econômicas entre os dois países. As dificuldades que a economia brasileira enfrentou por causa da hiperinflação na década de 1980 afugentaram os investidores japoneses. Nas décadas seguintes, os problemas em que o Japão mergulhou e que derrubaram sucessivos governos - o de Abe ainda tenta superar os problemas, por meio de rígida política fiscal e de estímulo aos investimentos e ao consumo - e a decisão dos japoneses de fortalecer sua influência econômica no Sudeste da Ásia e na China reduziram ainda mais o interesse pelo Brasil.

Um pequeno grupo de dirigentes empresariais dos dois países, com experiência nas relações bilaterais, no entanto, continuou a avaliar as possibilidades de ampliação dessas relações, o que evitou sua deterioração mais acentuada. Além disso, nos últimos anos, grandes empresas japonesas identificaram oportunidades de investimentos em áreas como infraestrutura e energia, nas quais fizeram aplicações volumosas. Os investimentos japoneses no Brasil já somam US$ 35 bilhões (resultado acumulado até dezembro de 2012). Mas poderiam ser muito maiores.

Com o conhecimento proporcionado pelo capital investido e, em vários casos, pela longa experiência no Brasil, dirigentes empresariais japoneses foram francos em apontar fatores que limitam o aumento dos investimentos no País. São problemas conhecidos de governantes responsáveis e investidores nacionais e estrangeiros, como a precariedade da infraestrutura, o ambiente desfavorável para os negócios e a escassez de mão de obra preparada para o desempenho das funções mais complexas criadas pela modernização constante do setor produtivo.

No comércio bilateral, são igualmente amplas as oportunidades de expansão, o que interessa sobretudo aos produtores brasileiros, que vêm encontrando dificuldades de acesso aos principais mercados. Parte dessas dificuldades seria superada com acordos comerciais, como os que o Japão tem concluído com diferentes países, inclusive latino-americanos, como México, Chile, Colômbia e Peru - antes do Brasil, Abe visitou os três primeiros, além de Trinidad e Tobago.

Com mais razão, o Japão poderia ter fechado um acordo com o Brasil. É marcante a influência da imigração japonesa no País, que se tornou importante parceiro comercial do Japão e, no momento, é seu aliado na campanha pela reforma do Conselho de Segurança da ONU - do qual querem tornar-se membros permanentes.

Mas, preso às regras do Mercosul - que o governo do PT insiste em reforçar e ampliar -, o Brasil só pode assinar acordos comerciais se todo o bloco aceitar. A Argentina, parceira preferencial do governo petista, tem rejeitado acordos desses tipo. É outro entrave que, discretamente, os japoneses apontaram.

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