Entre o atoleiro e o ajuste

O governo decidiu iniciar o ajuste porque a economia vai mal - não o contrário. O esclarecimento, levado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, a uma plateia de empresários, em São Paulo, pode até parecer redundante. Mas é indispensável, quando políticos, sindicalistas e economistas apontam a arrumação das contas públicas e o combate à inflação como ameaças ao crescimento econômico e ao emprego. Mas falar em ameaça ao crescimento, depois de anos de estagnação combinada com preços em disparada e crescente desequilíbrio externo, é mera fantasia. Pouco antes da fala do ministro, o Banco Central havia divulgado seu indicador mensal de atividade (IBC-Br). Em janeiro, o índice foi 0,11% inferior ao de dezembro e 1,34% menor que o de um ano antes, na série depurada de efeitos sazonais. É mais um sinal de fraqueza dos negócios, já indicada pelos dados da indústria, dos investimentos em máquinas, do comércio varejista e do mercado de emprego.

O Estado de S.Paulo

17 Março 2015 | 02h07

Os números do Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), devem sair no fim do mês. Devem ser muito ruins, mesmo com os novos critérios de medição recém-anunciados. A produção industrial deve ter encolhido mais uma vez, de acordo com os levantamentos conhecidos até agora. Dados do IBGE e das entidades empresariais, assim como as tabelas do IBC-Br, apontam um mau começo de ano e um primeiro trimestre provavelmente muito fraco.

Não haverá retorno ao crescimento, insistiu o ministro na palestra em São Paulo, sem um bom conserto das contas públicas e um firme ataque à inflação. "Como disse Roubini, quem não quer ajuste é suicida ou quer jogar a bomba para outro", disse Levy, parafraseando uma declaração do economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York, à Folha de S.Paulo. O entrevistado, no entanto, havia sido mais explícito em seu comentário: "Se a presidente não for irracional ou politicamente suicida - e não acho que seja -, o ajuste será feito".

O ministro da Fazenda reafirmou o compromisso da presidente Dilma Rousseff com o programa de ajuste - ainda um tema de controvérsia - e mostrou por que a nova política econômica é indispensável à retomada do crescimento. Haverá juros mais baixos, disse o ministro, quando as pessoas perceberem o rumo das correções e a robustez da economia. Os empresários voltarão a investir, acrescentou, quando tiverem referências claras para avaliar projetos e decisões de risco.

Ao defender a nova política, Levy afirmou também o esgotamento da estratégia seguida até o ano passado. A política anticíclica era defensável, segundo ele, em 2009, quando o governo tentava tirar o País da recessão. Mas as condições mudaram e, além disso, os incentivos criados naquela época e mantidos nos anos seguintes tornaram-se insustentáveis.

Levy pouco se empenhou, talvez por diplomacia, em mostrar a inadequação dos incentivos fiscais e financeiros da política anterior. Deu mais ênfase às limitações financeiras do governo federal. Além disso, defendeu - ainda diplomaticamente? - a explicação habitual da presidente da República: a situação mudou. É verdade: mudou, sim, mas há muito tempo, e o governo agiu, a partir de 2011, como se nenhuma alteração importante houvesse ocorrido na cena global. O ministro, é claro, sabe disso. Não pode deixar de saber. Mas sua tarefa é levar adiante a reparação dos danos e criar condições para uma nova fase de crescimento.

As ações do governo, segundo Levy, já vão além dos ajustes fundamentais. O programa envolve o avanço nas concessões para infraestrutura e medidas de simplificação e de transparência para facilitar os negócios e dar segurança às decisões. Em suma, para estabelecer melhores condições de operação para o setor privado. "Capitalismo de Estado não dá muito certo para uma democracia", disse o ministro. Mais uma vez, e provavelmente sem intenção de provocar, ele renegou uma orientação básica dos governos petistas, traduzida, por exemplo, na política do BNDES. É difícil ser diplomata o tempo todo.

Mais conteúdo sobre:
O Estado de S. Paulo

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.