Entre o cosmopolitismo e o localismo

Nossa ‘cidade futura’ enfrentará desafios imensos, mas não deve reiterar o passado

*Alberto Aggio, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2016 | 03h07

Ao olharmos para o panorama político nacional e internacional em que estamos imersos, e que seguramente influenciará as eleições municipais que se avizinham, não resta nenhuma dúvida de que vivemos tempos desafiadores e de mudança. O desafio será processar mais um aggiornamento na trajetória da nossa modernização. A ideia de mudança, apesar de alguns desencantos, tem estimulado os brasileiros a participar da vida política, além de ensejar um sentimento comum de valorização da construção coletiva da nossa democracia.

Desde a redemocratização passamos por muitas experiências, algumas bem-sucedidas, outras nem tanto. Muitos entenderam que democracia significava apenas reivindicar suas demandas ao Estado. Contudo os brasileiros vêm compreendendo que, embora importante, esse entendimento é insuficiente e não produz resultados duradouros. Não basta se indignar, protestar ou se rebelar. É necessário agregar interesses e organizá-los politicamente em torno de projetos de reforma e de transformação da realidade, mesmo que parciais e setoriais.

Com o incremento do interesse e da participação política da cidadania desde as jornadas de julho de 2013, cresce a percepção de que uma concepção verticalizada da ação política e de governo, de caráter oligárquico ou iluminista, compromete a construção da democracia e não responde às necessidades da população. Esse tipo de política, muitas vezes associado à demagogia, é hoje abertamente questionado. O tempo em que vivemos passou a exigir uma mudança nos comportamentos políticos cujo vetor está orientado para fortalecer, consolidar e renovar a vida democrática, com mais participação da cidadania.

Repensar a política a partir da realidade concreta dos cidadãos visando a equacionar os inúmeros problemas urbanos tornou-se reflexão obrigatória para inúmeros políticos e urbanistas ao redor do mundo. Em paralelo com problemas ecológicos, os problemas urbanos são reconhecidamente questões que afetam o conjunto da humanidade. Há efetivamente um deslocamento do lugar da cidade na trajetória futura da humanidade. O arquiteto Carlos Leite observou essa mudança de natureza histórica ao notar “o século 19 foi dos impérios, o século 20 das nações e o século 21 é o século das cidades”. Imersos e engalfinhados nas disputas eleitorais das cidades, estaremos, na verdade, disputando as orientações e os destinos do mundo no futuro imediato.

Há, portanto, uma necessidade imperiosa de mudar o enfoque, superando o localismo. O aforismo de que as pessoas vivem no município e não no Estado ou na Federação é apenas uma meia-verdade. Os problemas das cidades brasileiras e suas soluções não podem ser reduzidos a questões exclusivamente locais. O nefasto domínio do “poder local” pelos coronéis, assim como a expectativa de conquistar e construir um (outro) “poder local” a partir de uma versão envergonhada dos “sovietes”, que ainda embala os delírios do velho esquerdismo, não fazem mais sentido no século 21.

O nexo entre nossas cidades e a dinâmica mundial não se configura como uma construção artificial. Ele é parte da realidade da quase integralidade dos brasileiros. O que acontece é que as cidades brasileiras são muito pouco pensadas a partir de um enfoque cosmopolita. Como se sabe, a globalização cria imensas oportunidades e também instaura um quadro de grandes tensões num mundo que vive mudanças profundas e irreversíveis. As cidades globalizam-se e tornam-se expressão desse cenário dramático, mas dificilmente produzem uma política que leve efetivamente em conta essas grandes transformações, especialmente na esfera da comunicação entre pessoas, entre corporações e instituições, públicas e privadas.

Com raras exceções, o poder público nos municípios mantém-se inercialmente como a “vanguarda do atraso” nesse processo de mudanças avassaladoras que vêm impulsionando a transição para a sociedade do conhecimento, com sua dinâmica de permanente inovação, especialmente na comunicação instantânea entre pessoas e organizações. Mudar essa situação exige dos governantes transparência e abertura à sociedade.

É consensual entre os estudiosos do problema que o desafio está em buscar uma nova concepção de governança, em outras palavras, um modo de governar consonante com a crescente complexidade e diversidade da sociedade do nosso tempo. Indispensável para tanto é a ampliação do diálogo e a interação de uma pluralidade de atores, em relações horizontais, visando a ampliar a participação da sociedade no governo. Ainda de acordo com esses estudiosos, o espanhol Josep Pascual à frente, o conteúdo dessa governança tem como pauta a busca do desenvolvimento econômico e tecnológico integrado aos valores de equidade social, coesão territorial, sustentabilidade e ética. Sem democracia não se pode fazer nada disso.

No século 21, “bom governo” e governança democrática parecem formar uma conjunção absolutamente necessária. Sem desconsiderar a dimensão operacional da gestão pública e menos ainda a estrutura representativa da cidadania, a perspectiva da governança democrática deverá ajudar a consolidar uma cultura política que revalorize a política como território aberto de construção de objetivos democraticamente compartilhados.

Há um século Gramsci fez um incitamento à reflexão dos jovens de Turim por meio da expressão “cidade futura” como metáfora de um novo mundo, de uma nova sociedade. Ao contrário do que se imagina à primeira vista, não se tratava de uma utopia. No século 21 temos melhores condições materiais, tecnológicas e políticas para construir aquele novo mundo imaginado por Gramsci. Mesmo assim, e ainda que provavelmente diversa da ambicionada pelo jovem sardo, nossa “cidade futura” enfrentará desafios imensos, mas sabe que não deve reiterar o passado.

*Historiador, é professor titular da Unesp

 

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