Enxurrada de dólares e euros

Dinheiro farto vai continuar fluindo nos mercados americano e europeu, e talvez para o resto do mundo, por um bom período, porque os bancos centrais dos Estados Unidos e da zona do euro continuarão usando a política monetária no esforço de reativação dos negócios.

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2013 | 02h07

A economia europeia permanece em recessão. A americana, embora com desempenho muito melhor, tem produzido resultados abaixo das previsões do mercado financeiro e vem sendo travada por um severo aperto orçamentário. O governo brasileiro tem criticado a adoção de políticas desse tipo no mundo rico. A presidente Dilma Rousseff descreveu a expansão dos meios de pagamento no Primeiro Mundo como um tsunami monetário causador da depreciação do dólar e do euro. Isso resultaria na valorização do real, com encarecimento dos produtos brasileiros, quando cotados em moedas estrangeiras, e no barateamento das importações.

Esse efeito cambial tem sido menos sensível desde o ano passado. De fato, o real desvalorizou-se, mas o comércio do Brasil piorou. Autoridades brasileiras, no entanto, podem sempre usar aquele afrouxamento monetário para justificar a estagnação nacional. Resta ver se, desta vez, a elevação dos juros internos atrairá parte daquele dinheiro, favorecendo o desajuste cambial. Mas será inútil protestar, porque nenhum BC estrangeiro mudará sua política.

Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) anunciou na quarta-feira a manutenção dos juros básicos entre zero e 0,25% e a disposição de continuar comprando até US$ 85 bilhões de títulos por mês, para estimular a expansão do crédito e da economia. A política frouxa deve ser mantida enquanto a perspectiva de longo prazo apontar uma inflação compatível com a meta de 2% ao ano e o desemprego estiver acima de 6,5%.

Segundo nota do Fed, o crescimento econômico é moderado, o consumo e o investimento aumentam e o mercado imobiliário melhora. Mas num cenário de riscos. A política fiscal, segundo o informe, restringe o crescimento. Essa referência ao severo corte dos gastos federais, por falta de acordo político sobre a estratégia de ajuste, é a explicação mais clara sobre os entraves à recuperação.

De toda forma, o desempenho americano, com expansão em ritmo anual de 2,5% estimada para o primeiro trimestre, é muito melhor que o da maior parte da Europa.

Restrições fiscais são o grande problema comum às economias americana e europeia, embora a questão seja bem mais grave na Europa. Na quinta-feira, o Banco Central Europeu (BCE) reduziu de 0,75% para 0,50% a taxa básica de juros, cobrada no refinanciamento das instituições privadas.

Outras taxas também foram cortadas, em mais um esforço para azeitar as operações de crédito. As condições do mercado de trabalho continuam ruins, mas a atividade na zona do euro deve melhorar gradualmente no segundo semestre, disse o presidente do BCE, Mario Draghi.

Em vez de apontar o aperto fiscal como parte do problema, no entanto, Draghi cobrou dos governos um maior esforço para corrigir os desequilíbrios fiscais e para recapitalizar os bancos e concretizar a união do sistema bancário.

A proposta de maior flexibilidade nas políticas, com mais espaço para ações favoráveis ao crescimento em alguns países, continua em debate na União Europeia, mas sem efeito prático até agora.

O Fundo Monetário Internacional tem defendido essa mudança, mas sem abandono do compromisso com os ajustes de longo prazo. Seria uma adaptação complicada, mas, de toda forma, o governo alemão continua resistindo a sugestões desse tipo.

O governo brasileiro poderá continuar protestando contra a expansão monetária promovida pelo Fed, pelo BCE e, mais recentemente, pelo Banco Central do Japão. Faria melhor se cuidasse de promover internamente reformas e investimentos para elevar a produtividade e a competitividade do País, mas a agenda de Brasília continua favorecendo ações mais fáceis e mais demagógicas. É mais confortável continuar errando e culpar os outros.

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