Erros desastrosos no comércio

O buraco de US$ 6,02 bilhões no comércio exterior, no primeiro bimestre, foi pouco menor que o de um ano antes, de US$ 6,2 bilhões, mas só os otimistas insistirão nesse ponto. Basta um mínimo de realismo para reconhecer um quadro muito pior que o do começo de 2014. O País perdeu espaço no mercado internacional, como vendedor e como comprador. O valor exportado em janeiro e fevereiro, de US$ 25,8 bilhões, foi 13,1% menor que o dos primeiros dois meses do ano passado; o valor importado, de US$ 31,81 bilhões, foi 10,2% inferior. O recuo nas vendas é explicável tanto pelo baixo poder de competição da indústria quanto pela piora do mercado de matérias-primas. A redução das compras é um evidente reflexo do marasmo econômico, marcado tanto pelo enfraquecimento do consumo privado como pela queda do investimento produtivo.

O Estado de S.Paulo

04 Março 2015 | 02h05

A redução do consumo, mais clara no segundo semestre, é explicável pela combinação de vários fatores - inflação persistente e acelerada, menor dinamismo do mercado de emprego, piora das condições de crédito e insegurança diante das perspectivas da economia nacional. Agravado ao longo de 2014, esse quadro se manteve sem alteração importante nos primeiros dois meses deste ano. Somadas as dificuldades de exportação e a menor demanda de importados, a corrente de comércio - compras e vendas - encolheu 11,5%, pela média dos dias úteis. Todas as comparações interanuais estão baseadas nesse critério.

O País perdeu receita em todas as grandes categorias. As vendas de produtos básicos proporcionaram US$ 10,84 bilhões, 17% menos que no bimestre inicial do ano passado; as de industrializados, de US$ 16,85 bilhões, foram 9,2% menores. Neste grupo houve um pequeno aumento nas vendas de semimanufaturados (0,8%, para US$ 4,37 bilhões) e uma retração de 13,1% no valor dos manufaturados, de US$ 9,83 bilhões.

Os resultados pífios e cada vez piores do comércio exterior brasileiro, nos últimos anos e no começo de 2015, são explicáveis principalmente por erros estratégicos acumulados a partir de 2003 - graves equívocos diplomáticos e também da política industrial.

Além de limitar as possibilidades de acesso aos mercados mais desenvolvidos, esses erros tornaram o Brasil muito dependente da exportação de produtos agrícolas e minerais e do apetite chinês por produtos básicos. Foi como se os brasileiros houvessem renunciado à ambição de participar do comércio na primeira divisão, competindo com as economias industrializadas. A política terceiro-mundista adotada a partir de 2003, combinada com uma estratégia industrial no estilo dos anos 50 e 60, condenou o País a jogar nas divisões inferiores.

Tudo isso tornou o Brasil especialmente vulnerável às oscilações do mercado internacional de commodities. Nesse mercado a redução de preços, a partir do ano passado, foi em parte determinada pelas condições da oferta - especialmente no caso dos grãos - e em parte pelo menor crescimento econômico da China, grande consumidora de matérias-primas. As exportações brasileiras para o mercado chinês, compostas quase exclusivamente de produtos agrícolas e minerais, ficaram em US$ 2,88 bilhões e foram 38,3% menores que as de janeiro e fevereiro do ano passado. As vendas de manufaturados, muito dependentes do mercado sul-americano, foram prejudicadas principalmente pela crise na Argentina. As exportações totais para o mercado argentino, de US$ 1,82 bilhão, ficaram 17,3% abaixo das computadas no ano anterior. Em contraste, as vendas para os Estados Unidos, de US$ 3,77 bilhões, superaram por 2,4% as do mesmo bimestre de 2014. O novo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro, tem reclamado da falta de foco no mercado americano. Essa falta de foco é explicável por uma limitação ideológica - um erro infantil quando se trata de comércio, modernização e geração de empregos produtivos e decentes. A presidente Dilma Rousseff nunca se opôs a esses erros nem parece, até agora, ter percebido a sua gravidade.

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