Esbulho anticorrupção?!

Pode-se acusar o Movimento dos Sem-Terra (MST) de tudo, menos de incapacidade de adaptar seus objetivos aos fatos da moda. Na verdade, esse movimento social, sem existência legal - atuando fora da lei, portanto - e que tem como uma das mais marcantes características o emprego da violência, já adquiriu esmerado senso de oportunidade, verdadeira mestria na captação da última moda ideológica. Se começou suas atividades com reivindicações fundiárias, exigindo terra para trabalhadores e agricultores familiares do meio rural, de há muito deixou de lado essa meta (ainda que não a tenha excluído de sua retórica) para abraçar "causas" bem mais modernas, como a luta em favor do meio ambiente e contra o aquecimento global, a condenação dos transgênicos - e de quaisquer pesquisas de aperfeiçoamento genético de sementes -, o combate ao aumento da produção de cana para a fabricação do etanol, etc.Agora o MST abraça com todo entusiasmo a (como antigamente se dizia) "coqueluche" do momento, que é a luta contra a corrupção. Junto com seus aliados da Comissão Pastoral da Terra (CPT), Movimento de Libertação dos Sem-Terra e Movimento Terra, Trabalho e Liberdade, os militantes emessetistas escolheram como alvo Murici, cidade natal do clã de Renan Calheiros, a 60 quilômetros de Maceió. Ali, 2.500 manifestantes emessetistas ameaçaram invadir, quinta-feira, a fábrica de refrigerantes Schincariol, o cartório, o fórum e a prefeitura, governada por Renan Calheiros Filho - cujo pai, presidente do Senado, é processado pelo Conselho de Ética daquela Casa e cujas transações com gado em Murici estão sendo alvo de perícia da Polícia Federal. Na véspera, 400 famílias haviam invadido a Fazenda Boa Vista, do deputado Olavo Calheiros, irmão do presidente do Senado. Olavo foi dono da fábrica de refrigerantes Conny, vendida para o Grupo Schincariol por preço muito acima do valor, em operação que vem sendo colocada sob suspeita. As lideranças dos movimentos acusaram a família Calheiros de grilagem e pretendem entrar na Justiça exigindo intervenção no cartório de Murici. Dizem eles que a dona do estabelecimento, Maria de Lourdes Ferreira Moura, falsificou escrituras e certidões para "legalizar" terras supostamente griladas pela família do senador: "Em 2005, ocupamos esse cartório para perguntar onde estão as escrituras de terras das usinas falidas, que devem ao INSS e ao Banco do Brasil, mas tomamos conhecimento de que a documentação tinha sido desviada" - afirmou o coordenador da CPT, Carlos Lima. Sobre a Schincariol, ele diz que "nunca foi uma fábrica de refrigerante", mas "uma grande lavanderia para o dinheiro sujo da família Calheiros". Sem entrar no mérito de tais acusações - e há boas razões para que elas se acresçam às investigações dos negócios do senador alagoano -, bem é de ver que o MST e assemelhados inovam no combate a crimes por meio de outros. Diga-se, a propósito, que, se adotada fosse a estratégia de combater-se a corrupção com esbulhos possessórios (a arma principal usada pelo MST em suas operações), incontáveis haveriam de ser os prédios públicos invadidos neste país. Mas é claro que essa luta anticorrupção, assim como todas as outras encampadas pela entidade (ilegal) que representa, no Brasil, os interesses da internacional Via Campesina, não passa de mero pretexto de grupo político que se recusa tanto a virar partido quanto a se legalizar, visto que, atuando na ilegalidade e desfrutando da complacência oficial, se livra de incômodos controles por parte de órgãos de fiscalização do Estado. Até o caso da filha do presidente do Senado com a jornalista Mônica Veloso, a família Calheiros acreditava gozar da mesma impunidade. Quanto às formas de mobilização - independentemente dos pretextos alegados para justificar suas ações -, o MST não inova muito. Para lembrar o Dia Nacional do Trabalhador Rural, promove uma vasta operação em 9 Estados, com cerca de 10 mil pessoas invadindo propriedades, bloqueando estradas e realizando atos de protesto diante de prédios de repartições públicas de alguma forma ligados à reforma agrária.

O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2028 | 00h00

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