Escalada da violência

O secretário de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, admitiu o que os paulistas já perceberam faz tempo: que a criminalidade no Estado está tendo um acentuado surto de crescimento. "Lamentavelmente, é a escalada da violência", disse Ferreira Pinto, ao comentar o assassinato do italiano Tomasso Lotto na Avenida 9 de Julho, sábado passado. Lotto e um amigo estavam num carro quando foram abordados por dois bandidos numa moto. O italiano, que não falava português, saiu do carro e tentou fugir, mas foi baleado pelas costas. Os ladrões nada levaram.

O Estado de S.Paulo

25 Julho 2012 | 03h07

Para o secretário, criminosos que usam moto "têm mais agilidade, mobilidade", e o assassinato de Lotto "é mais um que ocorre na capital". Ele lamenta o caso, promete que "todas as investigações" serão realizadas para pegar os criminosos, mas admite que "isso ocorre lá (no Itaim-Bibi), ocorre na Cidade Tiradentes, em Itaquera, no Jardim Ângela" - ou seja, em toda a cidade de São Paulo.

Talvez por essa razão, a capital seja a 178.ª colocada num ranking mundial de segurança para estrangeiros elaborado pela consultoria Mercer. A última da lista, que tem 221 cidades, é Bagdá. "A maioria das cidades com baixa classificação está em países com instabilidade civil, altos índices de criminalidade e baixo cumprimento das leis", explicou Slagin Parakatil, da Mercer. Ou seja: São Paulo, para os estrangeiros, equivale às cidades em guerra. Já os paulistanos, diz outra consultoria, estão habituados a isso porque "tem olho até nas costas".

O primeiro passo para resolver o problema é, ao menos, reconhecer sua existência, como fez o secretário Ferreira Pinto. Os números, porém, já falavam por si. O salto estatístico apareceu em março, que registrou aumento de 79,2% no número de homicídios dolosos na capital paulista, em comparação com março de 2011. No Estado, o aumento foi de 7%, restabelecendo em São Paulo o índice de 10 mortos por 100 mil habitantes - faixa a partir da qual a violência é considerada "epidêmica". A redução desse nível talvez seja a maior bandeira do governador Geraldo Alckmin - que alardeou, com razão, a impressionante queda de 35,27 mortes por 100 mil habitantes em 1999 para 9,9 por 100 mil em 2o11.

No entanto, o súbito aumento dos últimos meses na capital, aliado à sensação de insegurança causada também por episódios de despreparo da polícia, revela sinais de fadiga da estratégia do governo. Como resposta, porém, as autoridades parecem mais preocupadas em reduzir sua parcela de responsabilidade. A violência policial contra inocentes, por exemplo, é atribuída à "tensão" causada pela onda de ataques do crime organizado contra policiais - ou seja, os óbvios problemas de treinamento da tropa para situações de confronto, nas quais mesmo bandidos têm de ter seus direitos assegurados, são convenientemente omitidos. O destempero de alguns PMs resultaria do medo que eles têm de serem mortos; logo, eles seriam tão "vítimas" quanto as pessoas que mataram.

Essa inversão de papéis atinge um perigoso grau quando o secretário Ferreira Pinto elogia um motociclista que recentemente matou, a tiros, dois suspeitos de tentar assaltar uma mulher em Santo Amaro. Não se sabe quem é o atirador. "Se ele atirou em defesa da senhora, ele atuou corretamente", disse Ferreira Pinto, como se o monopólio da violência legítima não estivesse nas mãos do Estado.

Aqui, o importante não é o caso do motociclista em si, cujos detalhes ainda são obscuros, mas a aceitação, por parte de uma autoridade pública da área de segurança, de que haja um justiceiro à solta por aí - neste caso disfarçado não com uma máscara de morcego, mas com um capacete de motociclista.

"A segurança pública é dever de todos", disse o secretário, numa tentativa excêntrica de atribuir aos cidadãos sua própria defesa. É improvável que Ferreira Pinto tenha pretendido mesmo pregar o "cada um por si", como sua declaração sugere, mas o ato falho da frase mal enunciada e o elogio ao justiceiro revelam que o governo paulista neste momento está mais preparado para capitalizar a redução da violência, quando ela ocorre, do que para enfrentar seu crescimento, quando ele se escancara.

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