Esperança para a Eletrobrás

Só uma nova Eletrobrás, muito mais enxuta e eficiente, poderá realizar até 2017 os investimentos de R$ 52,4 bilhões em geração, transmissão e distribuição de energia previstos para a empresa. Com prejuízo de R$ 10 bilhões no trimestre final de 2012 e R$ 6,9 bilhões em todo o ano, a estatal surpreendeu o mercado financeiro, na semana passada, com pagamento de dividendos e, mais importante, um programa ousado de reestruturação.

O Estado de S.Paulo

02 Abril 2013 | 02h08

Em três anos, de acordo com o plano, haverá um corte de 30% no custeio. A reforma deve incluir um enxugamento do quadro de pessoal, hoje com 27 mil funcionários. Serão desligados, segundo o anúncio, de 4 mil a 5 mil empregados. Bem recebido pelos investidores - as ações subiram imediatamente -, o compromisso de renovação vale também como reconhecimento de erros acumulados durante muitos anos de politização, loteamento e aparelhamento do Estado. Se a promessa for para valer, mais uma grande estatal entrará no caminho da recuperação já tomado pela Petrobrás.

Necessárias há muito tempo, as mudanças na Eletrobrás tornaram-se inadiáveis com a nova política de concessões. O governo decidiu antecipar a renovação dos contratos. Os novos acertos foram condicionados a uma redução de tarifas e a uma reavaliação dos ativos e, portanto, do resíduo da amortização de investimentos. Isso impôs perdas enormes às companhias participantes do esquema. Sem essa intervenção, a Eletrobrás teria fechado as contas de 2012 com lucro de R$ 3,2 bilhões.

Essa mudança de regras foi mais uma demonstração de voluntarismo da presidente Dilma Rousseff, mas acabou produzindo pelo menos um resultado positivo. Controlada pelo governo, a Eletrobrás aderiu ao plano e com isso perdeu mais alguns bilhões em valor de mercado. Sua administração foi lançada, no entanto, no meio de um desastre e teve de enfrentar uma escolha tão simples quanto dramática: providenciar o funeral da empresa ou aventurar-se num programa de recuperação. Não bastaria baixar a cabeça e dizer sim a mais uma imposição improvisada.

"Se não aceitássemos a proposta do governo, tudo que está acontecendo agora aconteceria em 2015", disse o presidente da empresa, José da Costa Carvalho Neto. "Limpamos tudo e chegamos ao fundo do poço. Agora só tem coisa para melhorar na Eletrobrás." Segundo ele, a empresa vai contratar um serviço internacional de auditoria para avaliar a estrutura societária e modelo de negócios e de governança.

Dessa análise deverão resultar propostas de mudança. Mas algumas linhas de ação já estão definidas. A estatal deverá unificar escritórios, padronizar sistemas internos de informação, desmembrar a Amazonas Energia, replanejar a participação em seis distribuidoras de energia e reexaminar a concessão das usinas térmicas de Nutepa, São Jerônimo e a fase A de Candiota. As seis distribuidoras deverão estar com as contas equilibradas em 2014 e dar lucro em 2015, prometeu Carvalho Neto.

A reestruturação é indispensável para converter a Eletrobrás em uma organização parecida com uma empresa - com um plano de trabalho claro e realista, cuidado com os custos, padrões razoáveis de eficiência e compromisso com resultados. Se permanecer como companhia aberta, seus administradores terão de cuidar também da lucratividade e de outros itens importantes para os acionistas, incluídos os minoritários. Mas é preciso pensar em muito mais que bons padrões para a governança diária. A Eletrobrás tem uma missão estratégica para o País.

Mais que lucrativa, a empresa tem de ser capaz de mobilizar capitais, próprios e de terceiros, para investir na expansão e na modernização do setor energético. Pelas contas divulgadas na última semana, falta definir de onde virão R$ 18,5 bilhões para completar os R$ 52,5 bilhões de investimentos programados até 2017. O recurso aos cofres do governo será provavelmente inevitável, porque o alto endividamento da empresa dificultará o acesso a fontes privadas. Um planejamento financeiro claro e confiável será essencial para a imagem da empresa e para a transparência das contas públicas, comprometidas pelos desmandos e pela contabilidade criativa do governo.

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