Esperando Obama

Deve haver argumentos melhores para considerar importante a vinda do presidente americano, Barack Obama, ao Brasil no próximo fim de semana - escala inicial de uma viagem que o levará ao Chile e a El Salvador, mas não à Argentina - do que lembrar que pela primeira vez um titular da Casa Branca visitará o País antes que o seu homólogo no Palácio do Planalto tenha ido aos Estados Unidos. Ou do que atribuir um significado histórico ao encontro entre eles, por serem, um, o primeiro negro a chegar ao topo em Washington, e, outra, a primeira mulher a fazer o mesmo em Brasília. Parece mais apropriado afirmar que o dia em que uma visita do gênero não for importante por si mesma, quaisquer que sejam os líderes dos dois países, o mundo terá se tornado irreconhecível.

, O Estado de S.Paulo

16 Março 2011 | 00h00

De todo modo, melhor para as relações bilaterais que esses líderes sejam os de hoje e não os que os precederam, apesar da celebrada e, afinal, irrelevante química pessoal entre George W. Bush e Luiz Inácio Lula da Silva. E embora Obama certa vez tenha apresentado jovialmente o brasileiro a outros dignitários como "o cara", enquanto o segurava pelo braço, o cerebral ex-professor de direito e o intuitivo ex-sindicalista não poderiam mesmo forjar vínculos que detivessem, no que disso dependesse, a radicalização antiamericana da política externa do lulismo. Numa perspectiva mais ampla, por fim, ninguém em seu juízo perfeito dirá que tanto faz para a política global que a voz dos Estados Unidos seja a de um democrata ilustrado e de mente aberta e não mais a de um rústico republicano supremacista. Isso conta também para o Brasil.

Um dos princípios que orientam, não de agora, a diplomacia brasileira é a defesa do multilateralismo nas relações internacionais. Assim como a defesa de soluções pacíficas e negociadas para os conflitos entre os países e a redução das desigualdades em escala global, aquela é uma premissa que não precisa ser explicada para um chefe de governo como Obama, sejam quais forem as contingências que o impeçam de dar curso às medidas indispensáveis que conduzam a tais objetivos. Mas a convergência pelo menos conceitual a esse respeito entre ele e a presidente Dilma Rousseff decerto constitui uma base segura para revigorar o entendimento brasileiro-americano. Este esteve prejudicado, de uma parte, pelo belicismo da era Bush e, de outra, pelo aventureirismo da política externa de Lula, pronta a pagar qualquer preço pelo que os seus condutores imaginavam ser a aquisição de um papel de liderança no concerto mundial.

A meta não mudou nem Brasília deixará de buscar, como encarnação dessa conquista, um assento permanente no Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas, mediante reforma do sistema de poder no organismo que passe a refletir as novas realidades globais, transcorrido mais de meio século de sua constituição. Ainda que as chances da pretendida mudança continuem rarefeitas, o Brasil forma com a Alemanha, o Japão e a Índia o grupo que a demanda mais ativamente. No fim do ano passado, numa visita a Nova Délhi, Obama defendeu com ênfase a inclusão da Índia no colegiado, com status igual ao dos EUA, Rússia, China, Inglaterra e França, os sócios fundadores do clube nuclear a que a Índia e o Paquistão se filiaram enquanto o Ocidente e a antiga URSS fingiam olhar para o outro lado.

Sendo o que são os interesses em jogo na esfera global, seria ilusório pretender que Washington queira o Brasil no Conselho de Segurança tanto quanto quer a Índia e o Japão. Mas Lula não precisava ter reforçado o viés antiamericano ao votar, a troco de uma fantasia, contra a imposição de mais uma rodada de sanções ao Irã por suas violações do Tratado de Não Proliferação Nuclear. É duvidoso que, em Brasília, Obama endosse a reivindicação brasileira, embora possa afagá-la com palavras bonitas. Enaltecerá também, como todos os seus antecessores até onde a memória alcança, a importância do País no subcontinente - e além. Mas tão óbvio como isso é o fato de que nem a América Latina nem mesmo o Brasil são prioridade para os EUA, apesar de todo o falatório sobre parcerias estratégicas. Bem pensadas as coisas, antes assim.

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