Esperando sinais da retomada

Governo foi incapaz, até agora, de conquistar confiança quanto à velocidade da reativação dos negócios

O Estado de S.Paulo

14 Fevereiro 2017 | 03h00

Depois de sete anos de preços em disparada, a inflação voltará à meta em 2017 e aí deverá permanecer em 2018, segundo as projeções de uma centena de instituições financeiras e consultorias cobertas pela pesquisa Focus, do Banco Central (BC). Os preços ao consumidor subirão 4,47% neste ano e 4,5% no próximo, de acordo com a expectativa registrada no relatório distribuído ontem.

Uma semana antes ainda se previa uma alta de 4,64% acumulada até o próximo mês de dezembro. Agora, pela primeira vez em muito tempo, o mercado estima um resultado levemente inferior à meta oficial de 4,5%. Se esse tipo de expectativa fizer alguma diferença, a autoridade terá conseguido um apoio importante para o sucesso, pelo menos nesta fase, da política anti-inflacionária. Mas o governo foi incapaz, até agora, de conquistar a mesma confiança quanto à velocidade da reativação dos negócios. 

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem falado com alguma insistência em recuperação da economia já a partir do primeiro trimestre. A reação, segundo ele, será inicialmente discreta, mas nos três meses finais o Produto Interno Bruto (PIB) já estará aumentando num ritmo anual em torno de 2%. No período de janeiro a março, a produção de bens e serviços deverá ser pouco maior que a dos três meses finais de 2016, com uma diferença de 0,2% a 0,3%, de acordo com o ministro. Algumas fontes do governo e também do setor privado estimam para o ano um crescimento médio próximo de 1%, provavelmente pouco menor, mas a maioria das projeções continua menos otimista. 

Segundo a pesquisa Focus, a mediana das projeções para o PIB caiu de 0,5% há quatro semanas para 0,48% na última, com uma passagem, nesse período, pela taxa de 0,49%. Não se trata apenas de uma estimativa pior que a das fontes do governo ou mesmo de fontes privadas aparentemente mais otimistas. Tem havido uma piora no cenário entrevisto pelos economistas do mercado pelo menos para os próximos meses. Eles continuam, no entanto, projetando para o setor industrial um crescimento de 1% em 2017. Esse já era o número previsto quatro semanas antes. A perspectiva de uma boa safra de grãos parece fazer pouca diferença para os autores dessas estimativas. 

Sem avançar no exame dessas expectativas, é pelo menos possível juntar alguns pontos favoráveis aos céticos quanto a uma retomada já em curso. Não está claro, por exemplo, se os sinais positivos observados em algumas indústrias, desde o fim do ano, apontam uma efetiva reativação, mesmo discreta, ou apenas uma recomposição de estoques. 

A persistência, no boletim Focus, de um crescimento projetado de 1% para o setor industrial em 2017 parece refletir essa dúvida. Uma expansão de 1% em 2017, afinal, corresponde a quase nada, depois de uma contração de 6,6% em 2016, precedida de outros anos de desempenho ruim. 

Há incertezas também quanto à evolução da demanda neste ano. Com desemprego ainda muito alto, uma recuperação sensível do consumo será uma surpresa. A liberação de uns R$ 30 bilhões das contas inativas do FGTS poderá ajudar, mas parte desse dinheiro provavelmente liquidará dívidas. O impacto no consumo é um mistério. Do lado positivo poderão contar-se, também, medidas de facilitação do crédito, mas com resultados ainda difíceis de estimar. 

A exportação de produtos industriais poderá dar alguma contribuição, mas limitada pelo pequeno contingente de empresas exportadoras. Do lado do investimento, pode-se destacar a compra de máquinas para o agronegócio. A reativação dos projetos de infraestrutura ajudaria, mas isso é só uma esperança. Faltam ações mais claras do governo. 

Em contrapartida, têm melhorado as projeções de crescimento do PIB em 2018. Em um mês a mediana passou de 2,2% para 2,3%, com expansão industrial de 2,05%. O potencial de aumento do PIB tem sido estimado por várias fontes em cerca de 2%. Crescer mais que isso por vários anos dependerá de investimentos bem maiores na capacidade produtiva e em ganhos de eficiência.

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