Espírito antidemocrático

Bolsonarismo e lulopetismo invocam a democracia com o objetivo de destruí-la

O Estado de S.Paulo

24 Setembro 2018 | 03h00

Cada um à sua maneira, o bolsonarismo e o lulopetismo consolidaram-se na campanha presidencial como estridentes manifestações de hostilidade à democracia e às instituições que garantem seu funcionamento. Esses movimentos nada têm a ver com a saudável e necessária crítica ao sistema, que deve ser feita regularmente em sociedades abertas; o que está em curso é uma ofensiva desenfreada para desmoralizar as instituições democráticas, como se estas só existissem e funcionassem para favorecer os inimigos políticos, estando, portanto, em estado de permanente suspeição. A história está repleta de exemplos do dano que tal visão irresponsável das coisas da vida é capaz de provocar.

Quando o candidato Jair Bolsonaro (PSL) vai às redes sociais para denunciar que somente uma fraude nas urnas eletrônicas poderá impedi-lo de se eleger presidente, a mensagem é que o sistema é deliberadamente vulnerável para lhe tirar uma vitória que, a seu ver, é líquida e certa. E mais: dá a entender que essa vulnerabilidade das urnas seria parte de um plano para reconduzir o PT ao poder e permitir que Lula da Silva, preso por corrupção e lavagem de dinheiro, seja solto.

De seu leito hospitalar, de onde se recupera da facada que recebeu durante um comício, o ex-capitão chegou a ir às lágrimas ao denunciar o tal complô: “Coloquem-se no lugar do presidiário que está lá em Curitiba”, disse Bolsonaro, em referência a Lula. “Com toda sua popularidade, sua possível riqueza, seu tráfego junto a ditaduras. Você aceitaria passivamente ir para a cadeia? Se você não tentou fugir, é obviamente porque tem um plano B” - e esse plano, segundo o candidato, só pode “se materializar numa fraude”.

Assim, a retórica do bolsonarismo segue o modelo dos movimentos de extrema direita que emergiram na Europa nos anos 30 do século passado, cujo discurso sistematicamente denunciava as forças invisíveis que se moviam no subterrâneo para destruir a nação. Bolsonaro criou uma narrativa conspirativa que, para os fanáticos antipetistas que o seguem, faz todo sentido - e, portanto, pouco importa se é verdadeira ou não.

Para os bolsonaristas, esse discurso ganha ainda mais substância quando as hostes lulopetistas anunciam, a quem interessar possa, que uma eventual vitória do PT nas eleições presidenciais resultará, ato contínuo, na liberdade de Lula da Silva. Foi o que disse com todas as letras o governador petista de Minas Gerais e candidato à reeleição, Fernando Pimentel, e confirmou a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, em entrevista ao jornal Valor. “O Lula foi preso para não participar da eleição. Eu não tenho dúvidas de que, logo após o processo eleitoral, o Lula vai estar nas ruas novamente”, afirmou Gleisi, destacando que o PT vai “trabalhar para que isso aconteça e ele seja liberado o mais rápido possível”, de modo a ter condições de desempenhar “um papel importante e grande” num novo governo petista.

Tal sem-cerimônia ao tratar do caso de Lula mostra mais uma vez o grau de virulência do PT em relação ao Judiciário, um dos pilares da democracia. Não é possível considerar democrático quem denuncia como um complô para Lula “não participar da eleição” uma decisão judicial que foi confirmada em segunda instância e que resiste a uma enxurrada de recursos que a portentosa defesa do ex-presidente impetrou e continua a impetrar nos diversos tribunais superiores. Haja teoria da conspiração...

O PT de Lula da Silva, assim, em nada se diferencia de seu antípoda, o bolsonarismo primitivo: ambos invocam a democracia com o objetivo de destruí-la assim que houver oportunidade.

E tudo isso se dá à luz do dia, nas redes sociais e no noticiário em todas as plataformas disponíveis. Tanto Bolsonaro como os porta-vozes de Lula deixam muito claro seu espírito antidemocrático e, ao que tudo indica, é por isso mesmo que ganham cada vez mais adeptos entre os eleitores desiludidos com a política. A julgar pelo andar da carruagem, a escolha em 7 de outubro não será entre propostas de governo, mas entre a manutenção da democracia ou sua perigosa degradação

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