Essa conta poderá ser alta

A pressa e a improvisação continuam marcando as medidas tomadas pela Prefeitura que afetam o transporte coletivo. O que é altamente preocupante, porque um setor de tamanha importância para a vida de milhões de paulistanos não pode ser tratado dessa maneira. Isto ficou mais uma vez evidente na implantação de mais 3,9 quilômetros de faixa exclusiva de ônibus nas Avenidas Antártica, Sumaré e Paulo VI, na zona oeste.

O Estado de S.Paulo

21 Novembro 2013 | 02h15

A forma atabalhoada com que as coisas foram conduzidas fez com que essa faixa começasse a funcionar segunda-feira sem que a retirada da sinalização da motofaixa existente na Avenida Sumaré - uma providência elementar - tivesse sido concluída. Segundo a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), isso aconteceu porque "o trabalho de remoção da motofaixa foi prejudicado pela chuva". Salta aos olhos que o mais fácil e acertado seria, então, adiar a inauguração na faixa. Afinal, sua implantação é muito simples - consiste apenas na mudança de sinalização da via - e, por isso, poderia perfeitamente esperar que a chuva passasse.

Outra consequência da sofreguidão foi o atraso na criação de bolsões exclusivos para os motociclistas, como contrapartida à eliminação da motofaixa. Eles ficarão nos principais cruzamentos da região. Não é de admirar que, nessas condições, muitos motociclistas tenham continuado a usar a motofaixa. A confusão provocada pela impossibilidade de a CET fazer o trabalho no prazo fixado só não foi maior, no primeiro dia, porque a maioria dos motoristas agiu com surpreendente disciplina. Além da imprudente correria da Prefeitura em implantar mais essa faixa exclusiva, é preciso considerar também se ela é realmente a melhor solução para essas vias, em especial a Avenida Sumaré.

A verdade é que os motociclistas e os motoristas de carro haviam se adaptado à existência da motofaixa implantada na Sumaré desde 2006. Tanto que o sindicato dos motoboys criticou a eliminação da motofaixa - "estamos trabalhando para aumentar essas faixas" - e reclamou da "falta de respeito da Prefeitura", que não consultou e sequer informou a entidade sobre sua decisão.

Nesse caso, os motoboys, que nem sempre primam pela sensatez, têm razão. Afinal, se a motofaixa os prejudicasse, certamente seriam eles os primeiros a contestá-la. Por isso, causa estranheza a posição do diretor de Planejamento da CET, Tadeu Leite Duarte, segundo o qual a motofaixa sempre foi um projeto-piloto que "não apresentou os resultados esperados", tendo inclusive aumentado o risco de acidentes. Projeto-piloto que durou sete anos? Quanto ao risco, os motoboys, que seriam as principais vítimas dele, não parecem ver as coisas da mesma maneira que a CET.

A ânsia incontrolável de mostrar serviço a qualquer custo, de olho na eleição para o governo do Estado em 2014 - um dos grandes objetivos do PT, no qual o prefeito Fernando Haddad está abertamente empenhado -, vem guiando as suas ações muito mais do que os reais interesses da população. Só isso explica o estardalhaço feito em torno das faixas exclusivas de ônibus.

Num primeiro momento, elas podem causar boa impressão a grande parte dos usuários de ônibus. Mas como, além de estarem sendo implantadas a toque de caixa, tudo indica que não se baseiam em sólidos estudos técnicos - se eles existem, por que não são divulgados? -, logo a população poderá se dar conta de que existe aí mais fogo de artifício do que ganhos verdadeiros.

A improvisação é evidente também na reorganização das linhas de ônibus, uma medida importante que por isso está sendo prejudicada. O que é lamentável porque essa reorganização, se bem feita, é fundamental para a melhoria do serviço. Nesse caso os usuários, cujos interesses não estão sendo levados na devida conta, já manifestam claramente seu descontentamento.

Os paulistanos poderão pagar um alto preço pela forma pouco séria com que a Prefeitura vem tratando o transporte coletivo.

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