Essa crise o FMI não previu

Não se sabe ainda a extensão dos danos impostos à produção, em todos os setores, pela paralisação dos transportes

O Estado de S.Paulo

30 Maio 2018 | 03h00

Bastou um fim de semana para o governo, cedendo à pressão e à chantagem dos transportadores, desarrumar e tornar mais inseguro o cenário examinado e discutido nas últimas semanas, durante visita de uma equipe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Visitas à maioria dos países-membros ocorrem anualmente, incluem conversas com fontes oficiais e independentes e servem para a coleta de informações destinadas a um relatório periódico. Relatórios desse tipo contêm dados sobre o desempenho e as perspectivas da economia e sugestões de política econômica. Divulgadas na última sexta-feira, as conclusões da missão enviada ao Brasil podem estar superadas quanto a alguns pontos muito importantes. Exemplo: não se sabe ainda a extensão dos danos impostos à produção, em todos os setores, pela paralisação dos transportes, um desafio enfrentado com atraso e sem autoridade pela administração federal.

A economia brasileira poderá crescer 2% neste ano, o dobro da taxa de 2017, impulsionada pelo consumo e pelo investimento privados. Essa projeção já é menos otimista que a dos economistas do mercado, mas estes têm reduzido suas estimativas. A mediana das projeções do setor financeiro e das consultorias caiu de 2,50% para 2,37% na semana passada, segundo pesquisa do Banco Central (BC). Não haverá surpresa se as expectativas continuarem piorando. Nenhum setor ficou imune à interrupção, por mais de uma semana, da movimentação de matérias-primas, componentes e produtos acabados. A escassez de combustíveis produziu estragos muito maiores do que a maioria das pessoas deve ter imaginado inicialmente.

O relatório menciona avanços em alguns itens da agenda econômica, como a criação do teto de gastos e a reforma trabalhista. Cita a perspectiva de um déficit primário (sem os juros) estimado oficialmente em 2,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Os fatos poderão até confirmar essa expectativa, se o governo conseguir compensar, em suas contas, as concessões feitas aos transportadores, mas ainda falta avaliar o efeito econômico desses acertos. Respeitar a meta fiscal e conter o déficit primário no limite de R$ 159 bilhões ainda dependerá, em boa parte, do ritmo de crescimento econômico e da arrecadação daí resultante. Todos esses fatores são incertos neste momento.

Também segundo o relatório, a política monetária tem sido e deve continuar “acomodatícia”, para facilitar a recuperação da economia, enquanto deve prosseguir o ajuste das contas públicas. Em resumo, aperto fiscal de um lado e política de crédito e juros calibrada para ao mesmo tempo estimular a atividade e atender à meta de inflação. Novas dúvidas, acumuladas neste fim de semana: 1) se a desordem causada pela ação dos transportadores alimentar a inflação, como poderá agir o BC em relação aos juros? 2) a recomendação do FMI para o outro ramo da política é uma “consolidação fiscal acelerada” – mas como ficará essa consolidação, se a reordenação do Orçamento for politicamente complicada?

Além de tudo, são necessárias mais medidas do lado da despesa para o teto continuar intacto. No entanto, subsídios ao diesel são a negação dessas medidas. O governo poderia seguir as sugestões do FMI ou seguir um ritmo mais lento de ajuste, mas, em todo caso, nenhuma política de ajuste poderia incluir nova distribuição de subsídios e outros benefícios.

O relatório ainda chama a atenção para o risco de choques externos – sobre o câmbio, por exemplo. Esses choques podem agravar “o efeito da incerteza política interna”. Mas o Brasil mais uma vez provou sua autossuficiência na geração de problemas. Não precisa de fatores externos para aumento da insegurança, como se viu nos últimos dias.

As conhecidas recomendações – reforma da Previdência e mudanças para tornar a economia mais eficiente e mais inclusiva – continuam válidas. Mas os apelos a favor da modernização e da racionalização da economia ficam mais dramáticos e tornam mais angustiante a pergunta: quem dará a resposta necessária?

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