Está caindo a ficha da ciclovia

Quando se constatou - no início da implantação das ciclovias - que elas eram produto do improviso e da intenção do prefeito Fernando Haddad de brilhar a qualquer custo, já estava claro que era apenas uma questão de tempo para as coisas serem colocadas no devido lugar. Que essa salva de fogos de artifício logo se apagaria, que não demoraria muito para a população perceber que as ciclovias, tal como estão sendo tocadas, não correspondem à ideia difundida pela Prefeitura.

O Estado de S.Paulo

15 Fevereiro 2015 | 02h05

Os resultados de uma pesquisa do Datafolha mostram que a opinião da população, antes bastante favorável, em princípio, às ciclovias, está mudando. A aprovação à implantação dessas vias, que era de 80% em setembro do ano passado, diminuiu muito. Ela está agora em 66%. E os que se mostravam contrários a elas pularam de 14% para 27%. Mas não é só isso que dá o que pensar.

Outros dados igualmente importantes a respeito da questão mostram que o uso da bicicleta, em vez de crescer com a maior oferta das vias exclusivas, como seria natural, está diminuindo. Em comparação com o mês de setembro, a proporção de proprietários de bicicleta caiu de 32% para 27%. Tem mais. Também caiu de 10% para 6% o número dos que utilizam a bicicleta todos os dias; de 12% para 10% os que fazem isso 3 a 4 vezes por semana; de 42% para 34% de 1 a 2 vezes. E o número dos que não usam aumentou de 10% para 13%. Todos os dados convergem para uma redução do entusiasmo inicial com relação à bicicleta.

Independentemente de pesquisa, qualquer observador atento sabe o que se passa, pois é raro ver um ciclista utilizando a maior parte dessas vias, tanto em dias úteis como aos sábados e domingos, ou seja, elas estão longe de ter a serventia ou o atrativo alardeados pela Prefeitura, seja para ir ao trabalho, seja para lazer. No máximo, como disse no final do ano passado o presidente do Conselho de Segurança (Conseg) de Santa Cecília, Fábio Fortes, "quem está usando essas faixas aqui na região é uma classe média alta e desocupada".

Comentando a pesquisa na Rádio Jovem Pan, o prefeito Fernando Haddad não deu o braço a torcer, como já era de esperar. A seu ver, a baixa utilização das ciclovias se deve ao fato de o projeto ainda estar incompleto: "Um por cento das vias com malha cicloviária não é suficiente para as pessoas planejarem seus deslocamentos". Convenhamos que fica difícil aceitar esse argumento quando se lembra que São Paulo tem hoje cerca de 200 km de ciclovias, metade do que ele havia prometido até o fim de seu governo.

O mesmo se pode dizer de outro argumento apresentado na ocasião e que tem estreita ligação com o anterior - o de que a implantação de ciclovias vem antes da demanda por elas. "Eu perguntei para vários prefeitos, de Nova York, Bruxelas: o que veio primeiro? A ciclovia ou os ciclistas? E a resposta foi unânime: primeiro a malha cicloviária", disse.

Essa é uma simplificação que distorce a questão e, por isso, não fica bem para uma autoridade. Peguemos o caso de Nova York, citado por Haddad. Em primeiro lugar, lá a malha cicloviária, de 587 km, não foi implantada às carreiras e improvisadamente como está acontecendo aqui. Foi planejada e sua implantação durou sete anos, de 2007 ao fim de 2013, com uma média de 83 km por ano. Aqui, se tudo sair como quer o prefeito, serão 500 km durante seu mandato.

Além disso, em Nova York a população foi ouvida a respeito do projeto - em média 2 mil encontros por ano de autoridades e moradores para saber a opinião deles sobre as ciclovias e outras intervenções ligadas ao trânsito. Em São Paulo, tivemos em vez disso uma combinação de falta de planejamento, correria e fanfarronices de Haddad e de seu secretário de Transportes, Jilmar Tatto.

Ninguém nega a importância crescente da utilização da bicicleta como meio de transporte, e, portanto, da implantação de vias especiais para ela, atestada pela experiência bem-sucedida de Nova York e grandes cidades europeias. Mas isso não pode ser feito da maneira estabanada de Haddad.

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