Estagnação com inflação

O governo brasileiro pode apresentar ao mundo, com muito orgulho, uma rara combinação de resultados econômicos - uma das taxas de crescimento mais pífias do globo e uma inflação muito mais alta que a da maior parte dos países civilizados. Com as bênçãos da presidente Dilma Rousseff, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, prometeu no começo de 2012 uma expansão econômica de 4%, um resultado apenas razoável depois dos 2,7% do ano passado. Hoje só os otimistas ainda esperam um avanço de 1,5% neste ano. Os últimos cálculos divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ficaram abaixo da pior estimativa do mercado e reforçaram as dúvidas sobre a recuperação em 2013.

O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2012 | 02h07

No terceiro trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,6% sobre o período de abril a junho. Especialistas do setor financeiro e das consultorias haviam apostado em números na faixa de 0,9% a 1,4%, com mediana de 1,2%. A inflação estimada, no entanto, continua na faixa de 5% a 5,4%, compatível, em condições mais ou menos normais, com um ritmo de atividade muito mais intenso. As autoridades toleram a inflação em troca de nada e isso pode complicar os próximos lances do jogo.

A produção nacional, segundo o discurso mantido pela cúpula do governo há várias semanas, vinha avançando nos últimos meses num ritmo equivalente a pelo menos 4% ao ano. Também essa ilusão foi desfeita pelos dados do IBGE. Projetado para quatro trimestres, o crescimento do período julho-setembro resultaria numa expansão de 2,42%. Será necessária uma aceleração considerável para alcançar o resultado prometido pelos ministros da área econômica.

Mas é difícil descobrir de onde virá o impulso. Neste ano, a indústria foi incapaz de acompanhar a demanda de consumo das famílias e do governo e boa parte do estímulo foi aproveitada, afinal, pelos fornecedores estrangeiros. O governo se mostra, no entanto, disposto a continuar incentivando os consumidores a ir às compras, sem dar atenção pelo menos equivalente aos produtores nacionais de manufaturados. Pouco se tem feito para garantir as bases necessárias a uma expansão razoável e segura da produção nos próximos anos. Do segundo trimestre para o terceiro, o valor investido em máquinas, equipamentos, instalações e obras de infraestrutura diminuiu 2%. No acumulado do ano, o setor público e o setor privado investiram 3,9% menos que em igual período de 2011.

Este é o pior de todos os resultados. O investimento, normalmente muito inferior ao necessário para uma expansão econômica sustentável na faixa de 4% a 5% ao ano, diminuiu em 2012. No terceiro trimestre, foi 5,6% menor que em igual período do ano anterior. No acumulado do ano, a diferença para menos chegou a 3,9%. Isso se explica em boa parte pela incapacidade gerencial do setor público, mas a retração dos investidores privados também é preocupante. São compreensíveis os receios do empresariado, diante das incertezas quanto à política econômica e das dificuldades de enfrentar a competição internacional. Sem efetivo planejamento de longo prazo, o governo continua baseando sua ação econômica em medidas de alcance limitado, como incentivos temporários, benefícios fiscais a setores escolhidos e mais protecionismo.

No terceiro trimestre, o Brasil investiu o equivalente a 18,7% do PIB. Um ano antes a taxa havia alcançado 20%, mas o resultado final de 2011 ficou em 19,3%. Outros países emergentes investem valores mais próximos de 30% do PIB e os mais dinâmicos alcançam proporções próximas de 40% (caso da China). Além do valor investido, é preciso também levar em conta a eficiência da aplicação dos recursos e a qualidade dos projetos.

No Brasil, um exame desses detalhes provavelmente mostrará um quadro bem mais feio, por causa do custo excessivo das obras e da pulverização de recursos em projetos mal concebidos ou pouco relevantes para a produtividade geral do País. Nem será preciso comparar o custo de uma estrada chinesa com o de uma estrada brasileira para chegar a essa conclusão. A realidade material, enfim, pode ser bem pior do que sugerem os números revelados pelo IBGE.

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