Estatais investem menos

De janeiro a agosto, as estatais brasileiras reduziram em 15% os investimentos em relação ao mesmo período de 2013, informa a organização não governamental Contas Abertas, com base em dados recentes fornecidos pelo Ministério do Planejamento. Na série histórica desde 2000, no período relativo aos dois primeiros bimestres, foi a segunda vez em que ocorreu redução nos investimentos das estatais, o que vem sinalizar uma vez mais os efeitos deletérios que o governo Dilma tem provocado nas empresas estatais. É também mais um sinal do esgotamento do modelo econômico - se é que se pode dar esse nome a um conjunto de ações desconexas - atual, esgotamento que estrangula empresas privadas e estatais.

O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2014 | 02h05

Os investimentos das estatais de janeiro a agosto de 2013 foram de R$ 70,1 bilhões. Neste ano, no mesmo período, os investimentos foram de R$ 59,9 bilhões. A queda de 15% deve-se em boa medida à Petrobrás, cujos investimentos caíram R$ 10 bilhões entre 2013 e 2014 (de R$ 62,1 bilhões para R$ 52,1 bilhões). Mas não foi ela apenas que reduziu investimentos. O mesmo movimento foi observado na Eletrobrás e em outras estatais. Até a Infraero, que nos anos anteriores havia mantido taxas recordes de investimento, reduziu os seus números. A estimativa é de que os investimentos das estatais em 2014 fiquem em torno de R$ 105,8 bilhões, ante R$ 118,6 bilhões em 2013.

Essa queda, que reflete a situação da economia, é ainda mais significativa quando se observa que o governo do PT sempre teve em alta prioridade - ao menos, nos discursos - os investimentos das estatais. Fica evidente que, apesar da intenção do governo, já não há mais fôlego para manter o ritmo.

Em 2009, após a crise financeira global, o governo excluiu a Petrobrás e a Eletrobrás - as duas maiores estatais federais - do cumprimento das metas fiscais para geração de superávit primário e controle da dívida pública. Perante a impressão generalizada de que se tratava de uma "contabilidade criativa", o governo justificou a operação sob o argumento de que era uma forma de permitir o crescimento dos investimentos das estatais, também por meio de captações de empréstimos. A ideia era que as estatais - com o aumento dos seus investimentos - servissem de instrumentos anticíclicos no combate aos efeitos da crise financeira global, mantendo a economia brasileira aquecida. Ainda que os resultados dessa política sobre a economia nacional possam ser contestados, a continuidade do aumento de investimentos das estatais - que vem ocorrendo desde 1994, com exceção de 2011 - sem dúvida evitou que, no período da crise internacional, os índices de investimento do País ficassem ainda piores.

Mas o fôlego das estatais parece ter chegado ao fim, e os investimentos estão em queda. Infelizmente, é a consequência natural de sua situação financeira. Conforme afirma a nota técnica Atualidades sobre os investimentos e as grandes contas das Empresas Estatais Federais no Brasil, do Ibre-FGV, "as estatais não vão nada bem e estão precisando se endividar para atender até mesmo as despesas operacionais (custeio)". Como investir se as coisas andam por essas trilhas?

A péssima situação das estatais contrasta com o fato de, de 2005 a 2013, ter havido diminuição de sua carga tributária, segundo a mesma nota técnica do Ibre-FGV. Em 2005, a carga era de 3,2% do PIB; já em 2013, foi de 2,14% do PIB - redução mais do que expressiva, já que, no mesmo período, a carga tributária nacional global passou de 35% para 37,4% do PIB. Como se observa, mesmo aliviando o peso dos impostos sobre as estatais, elas não conseguiram resultados satisfatórios.

Segundo o economista José Matias-Pereira, não é apenas o endividamento a causa para a queda nos investimentos. As constantes ingerências políticas e os casos de corrupção também provocam efeitos daninhos.

Diante desse panorama, compreende-se que os resultados do primeiro turno das eleições presidenciais tenham levado a uma alta nas ações das empresas estatais. Não é de hoje que Dilma tem feito mal às estatais.

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