Estelionatos nos Correios

Já se disse que a qualidade dos serviços públicos de um país pode ser medida pela do seu serviço de correio. Não existe um ranking internacional a esse respeito, mas, se houvesse, o Brasil atual certamente não teria posição favorável. Como se não bastassem as irregularidades detectadas na direção dos Correios no governo anterior, e a recente greve que paralisou os serviços postais no País por 28 dias, a Polícia Federal (PF) iniciou na semana passada operação para desbaratar uma quadrilha que atuava com a conivência de funcionários dos Correios, em centros de triagem de correspondências, para interceptar cartões de crédito e de débito enviados pelos bancos a seus clientes.

O Estado de S.Paulo

14 Novembro 2011 | 03h06

Até quarta-feira, 34 suspeitos de estar envolvidos no crime foram presos pela Polícia Federal, numa operação ironicamente denominada Crédito Fácil, para a qual foram mobilizados 250 de seus agentes. Ao todo, foram expedidos 48 mandados de prisão e 58 de busca e apreensão, a serem cumpridos na Grande São Paulo, Limeira e Itapetininga.

Este tipo de crime mostra, ainda uma vez, como os cidadãos estão expostos a fraudes financeiras, que se tornaram mais frequentes com a invasão cada vez maior de sua privacidade. Sim, porque não basta a posse de um cartão de crédito para que o seu detentor possa utilizá-lo. É preciso também que tenha conhecimento da respectiva senha, que é enviada pelos bancos em correspondência à parte, que os criminosos têm também de interceptar. Além disso, as instituições financeiras, para o desbloqueio do cartão, checam os dados pessoais do cliente, os quais só por meios escusos podem ser obtidos por elementos estranhos.

Apesar das precauções, a PF estima que 5 mil transações tenham sido realizadas pela quadrilha entre janeiro do ano passado e outubro deste ano, sendo desviados valores no total de R$ 4 milhões, envolvendo apenas clientes da Caixa Econômica Federal. Pelas evidências, calcula-se que o valor pode quintuplicar, com a inclusão nas investigações de cartões emitidos por outras instituições financeiras.

Para os clientes pessoas físicas são valores muito elevados, que podem significar perdas ruinosas, se não grandes incômodos para comprovar que foram lesados junto aos bancos. Os maiores bancos têm ouvidorias ou departamentos especializados em investigação de queixas de clientes. Mas para as pessoas que veem quantias consideráveis desaparecerem de repente de suas contas, relativas a gastos que não fizeram, o processamento das reclamações é demorado e desgastante. Os bancos podem alegar que a senha e os dados estão corretos e, se não se tratar de uma pessoa conhecida pela instituição, as perdas podem ser irreversíveis. Isso também aponta para os riscos do chamado "cadastro positivo", pelo qual os dados de um cliente podem se disseminar pela rede bancária, tornando-se mais facilmente acessíveis e "vazados" por funcionários inescrupulosos.

As quadrilhas organizadas também se valem da internet, enviando e-mails falsos, em nome de bancos e de serviços públicos, solicitando dados pessoais para atualização de cadastro. Muitas pessoas ingenuamente caem nessas armadilhas e, recentemente, a Secretaria da Receita Federal alertou os contribuintes a não fornecerem informações solicitadas por cartas supostamente enviadas por aquele órgão.

Seria tão injusto culpar os bancos pelo que está ocorrendo como incriminar toda uma corporação como os Correios, com 107 mil servidores, pelos crimes cometidos por apenas alguns. Fraudes financeiras as mais diversas ocorrem em todo o mundo e às vezes passam anos sem ser descobertas. Contudo, são notórias as falhas administrativas que a Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) tem apresentado nos últimos anos. Funcionários encarregados da triagem de correspondência não passam, aparentemente, por um crivo especial. A ECT tem uma auditoria interna e adota um código de ética, mas não realiza uma fiscalização nos moldes do Postal Inspection Service, dos EUA. O órgão, que atua com rigor na verificação de falhas operacionais e para apuração de fraudes, parte da premissa de que a segurança do sistema postal está diretamente ligada à sua imagem junto ao público.

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