Estiagem de ação

Embora se trate de um problema antigo, um dado novo dá a dimensão da gravidade da seca. Antes circunscrito a cidades da zona rural, o desabastecimento de água já ameaça centros urbanos como Campina Grande, na Paraíba, e Fortaleza, no Ceará. Aliás, este Estado é o que mais tem sofrido com a estiagem

O Estado de S. Paulo

12 Janeiro 2017 | 03h07

Pela inação de sucessivos governos, o Brasil parece tristemente inclinado a nutrir apreço por certas mazelas, como se debelá-las fosse um atentado contra a própria identidade nacional, tão atavicamente ligadas ao País elas estão há gerações. O que mais pode explicar o flagelo da seca no Nordeste em pleno século 21? Com todo o cabedal de conhecimento e de tecnologias que estão disponíveis, governantes genuinamente imbuídos de boa-fé, espírito público ou mesmo compaixão já poderiam ter amenizado a intempérie climática e tornado a seca um problema administrável, sem consequências mais severas para a população e o meio ambiente.

Por cinco anos consecutivos, o volume de chuvas na região do semiárido nordestino tem estado abaixo da média histórica, culminando em 2016 na maior seca registrada em 100 anos. É o que mostra a reportagem de Cleide Silva e Hélvio Romero no Estado de segunda-feira passada. Os reservatórios de água da região contam, em média, com apenas 16,3% da capacidade de armazenamento preenchida. Há cinco anos, este porcentual era de 46,3%. A dramaticidade do problema pode ser medida ainda pelo número de afetados: são 23 milhões de brasileiros em nove Estados (Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e o norte de Minas Gerais).

Embora se trate de um problema antigo, um dado novo dá a dimensão da gravidade da seca. Antes circunscrito a cidades da zona rural, o desabastecimento de água já ameaça centros urbanos como Campina Grande, na Paraíba, e Fortaleza, no Ceará. Aliás, este Estado é o que mais tem sofrido com a estiagem. O açude do Castanhão, responsável por abastecer os quase 3 milhões de habitantes da capital cearense, opera hoje com apenas 5% de sua capacidade de armazenamento. Os demais reservatórios que abastecem o Estado têm apenas 7% da capacidade armazenada.

Como se não fosse infortúnio suficiente, é ainda mais alarmante constatar que ao drama humano e ambiental da seca se soma o enfraquecimento da economia local, uma perversa combinação que tem contribuído para minar os importantes avanços sociais observados no Nordeste nos últimos dez anos. Segundo dados da consultoria Tendências, o Produto Interno Bruto (PIB) da região recuou, em média, 4,3% ao ano em 2015 e 2016, o pior resultado de todas as regiões brasileiras. O relatório da consultoria aponta ainda para o recuo da renda familiar em 2% ao ano, no mesmo período, em virtude do alto índice de desemprego, o que contribuiu para a queda de 20% da atividade econômica do setor de varejo.

Não obstante os investimentos feitos por governos de todos os partidos e matizes ideológicos, persiste o drama do povo nordestino com a seca. Há dificuldades claras com o modelo de abordagem do problema. Projetos de grande porte, como a propalada transposição do Rio São Francisco – que se estende por mais de 30 anos, ao custo de bilhões de reais – e a construção de enormes açudes, têm tomado o lugar de políticas públicas de execução mais modesta, eficiente e barata, como o Programa Cisternas, hoje incipiente. Tal estratégia coaduna-se com uma infeliz prática brasileira. Enquanto obras faraônicas de impacto questionável dão azo à malversação do dinheiro público, além de concentrar o abastecimento de água nas mãos da velha oligarquia local, iniciativas mais modestas perdem espaço. Ao custo de pouco mais de R$ 3 mil, a instalação de uma cisterna de captação de água pluvial pode manter uma família de cinco pessoas durante oito meses de estiagem, segundo estimativa do Ministério da Integração Nacional. Tomando-se o Orçamento da União, o custo para instalação das cisternas por todo o semiárido nordestino seria irrisório diante dos benefícios a serem auferidos.

A renitência da seca nordestina e seus efeitos perniciosos atestam que nem sempre as ideias mais complexas – e onerosas – são as melhores soluções para resolver um problema. Nem para a população diretamente afetada, nem para o meio ambiente e tampouco para o erário.

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