Estoques ajustados

Após a fase mais aguda da crise econômica, em janeiro, 21,8% das indústrias brasileiras tinham estoques em excesso, porcentual que se reduziu, em maio, a 14,1%. O setor conseguiu, assim, adequar-se à demanda e recuperar a capacidade de crescer. Os resultados foram muito positivos, ajudando a diminuir custos e permitindo a recontratação de mão de obra.A acumulação de estoques ocorreu num período muito curto: em setembro de 2008, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apenas 3,5% das indústrias admitiam ter estoques excessivos. Três meses depois, 21% das indústrias tinham estoques e a tendência de aumento continuou em janeiro. Em alguns setores, a situação tornou-se crítica. Na fase mais aguda, havia estoques excessivos, em média, em 35% a 40% das indústrias de material elétrico e de comunicações, celulose, papel e papelão e material de transporte. No setor químico, esse porcentual superou o nível considerado ideal em 50% das empresas, disse ao Estado o presidente executivo da Abiquim, Nelson Pereira dos Reis.O acúmulo de estoques é um problema inevitável quando a demanda cai abruptamente, como ocorreu em 2008, com a recessão global chegando aqui.Em alguns casos, as empresas tiveram de adotar medidas extremas, como a montadora Fiat, que alugou o pátio de um aeroporto para abrigar os veículos que havia produzido, mas não tinham compradores. A fabricante de tanques, purificadores e ventiladores Latina teve de alugar armazéns para estocar uma produção 70% acima da demanda.Quando as montadoras e empresas de eletroeletrônicos adiam as compras, os estoques de aço também se acumulam. Os distribuidores da matéria-prima, segundo o presidente da associação de classe (Inda), Carlos Loureiro, chegaram a ter em estoque, em dezembro, o equivalente a seis meses de vendas, mais do que o dobro do "nível saudável", que é de pouco mais de dois meses. Para não serem obrigadas a "queimar" os estoques a qualquer preço, as indústrias tomaram empréstimos bancários. Tiveram assim, em muitos casos, de escolher entre o ruim e o pior: a venda rápida a qualquer preço ou o custo do financiamento. Em situações agudas, ocorreu a quebra da empresa ou o ingresso no regime de recuperação judicial.Na tentativa de enfrentar os efeitos negativos do excesso de estoques, as empresas começam cortando a produção e, em geral, os empregos. Mais de meio milhão de vagas com carteira assinada, no setor secundário, foi cortado entre novembro e março, segundo dados oficiais. Na indústria eletroeletrônica, por exemplo, houve 10 mil demissões, segundo o presidente da Abinee, Humberto Barbato. Os cortes de pessoal só foram interrompidos em maio, quando surgiram sinais de melhora da demanda. A crise pegou a indústria com muito mais força do que o setor de serviços, a agropecuária e o comércio. Os agentes econômicos consultados pelo Boletim Focus, do Banco Central, estimam que a produção industrial deverá cair 5,04%, neste ano, tornando o setor secundário o maior responsável pelo recuo do PIB previsto para 2009.As medidas adotadas pelo governo para amenizar os efeitos da crise já produzem resultado. Algumas empresas beneficiadas pela redução do IPI já constatam que a produção voltou aos melhores níveis de 2008, caso da fabricante de refrigeradores Whirpool, cuja produção, em maio, superou em 20% a de maio de 2008, "um número extraordinário", segundo o diretor de Relações Institucionais, Armando do Valle. Para atender à demanda, foram contratados 400 empregados.Quando o incentivo fiscal do IPI for suspenso, é possível que os resultados se tornem menos expressivos, a menos que o conjunto da economia esteja normalizado, sob influência da melhora do crédito, do emprego em geral e da construção civil.Mas, de qualquer forma, a retomada da indústria de transformação deverá se intensificar no segundo semestre.

, O Estadao de S.Paulo

10 de julho de 2009 | 00h00

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