Estragando a foto

Sair mal na foto é uma tristeza, mas estragar a foto da classe é um vexame. Brasil, Argentina e Venezuela cometeram esse papelão, ao arruinar as projeções de crescimento e de inflação da América do Sul publicadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A economia da região deve crescer apenas 0,7% neste ano, muito menos que a média dos países emergentes, com expansão estimada em 4,4%, segundo o Panorama Econômico Mundial divulgado ontem.

O Estado de S.Paulo

08 Outubro 2014 | 02h05

O desempenho dos sul-americanos deve ser mais modesto do que tem sido desde antes da crise. Mas a perda de impulso está longe de ser, na maior parte da região, tão desastrosa quanto parecem indicar as médias de crescimento de 0,7% em 2014 e de 1,6% em 2015.

O pior resultado, entre as economias mais dinâmicas da região, deve ser o do Chile, com 2% de aumento do Produto Interno Bruto (PIB). Taxas melhores são estimadas para Colômbia (4,8%), Peru (5,1%), Equador (4%), Bolívia (5,2%) e Paraguai (4%).

Com esses componentes, a foto seria razoável. Mas o quadro geral ficou feio por causa de três das economias de maior peso na região. A maior de todas, a brasileira, deve expandir-se em 2014 apenas 0,3%, segundo estimam os economistas do FMI. É número pouco melhor que a mediana das projeções do mercado financeiro, de 0,24%, recolhidas na última pesquisa Focus do Banco Central. Para o PIB argentino, os técnicos do FMI calculam uma retração de 1,7% neste ano, seguida de mais um resultado negativo de 1,5% em 2015. Para a produção venezuelana, são apontadas duas contrações - de 3% em 2014 e de 1% em 2015.

Brasil, Argentina e Venezuela formam uma espécie de triângulo das Bermudas na economia da América do Sul. A coincidência desses países no mau desempenho é perfeitamente natural e facilmente explicável. Não se trata de casualidade.

Embora em graus diferentes, os governos dos três países têm-se mostrado estatizantes, intervencionistas, inclinados a disfarçar os desarranjos econômicos e, é claro, a atribuir a outros as consequências de seus erros. Se a economia perde vigor, é porque há uma crise internacional. Se a moeda se valoriza ou desvaloriza perigosamente, é por causa da política monetária de alguma potência. Se a dívida externa se transforma em pesadelo, é por culpa de fundos abutres ou de banqueiros gananciosos (nunca se discute como a dívida se formou, cresceu e se tornou insustentável).

A cura da inflação nunca passa pelo controle do gasto público. Às vezes, nem o aperto monetário é admitido. Juros altos atrapalham e, portanto, é perfeitamente justificável diminuir de forma voluntarista o custo do dinheiro. Depois, é mais simpático e revolucionário combater a inflação por meio do controle de preços.

Se, apesar disso, a inflação sai dos trilhos, a culpa é dos especuladores e exploradores do povo. Entre esses exploradores se incluem, naturalmente, os banqueiros. Isso rende até propaganda eleitoral. Se um banco central autônomo eleva os juros com o pretexto de combater a inflação, ninguém deve iludir-se. Os banqueiros serão os únicos beneficiários e usarão essa política para tirar a comida do prato do trabalhador.

O bolivarianismo, bandeira e doutrina do governo venezuelano, é apenas a expressão mais completa, mais acabada e mais desastrosa desse tipo de política. A presidente Cristina Kirchner tem-se esforçado para chegar lá. É preciso reconhecer seus méritos. Não é fácil de criar problemas de abastecimento de comida num país com a tradição agropecuária da Argentina, mas ela, como alguns ilustres antecessores, conseguiu.

Como os Kirchners, a presidente Dilma Rousseff tem-se mostrado simpática ao bolivarianismo e adepta de seus métodos econômicos e políticos. Tem sido fiel, nesse ponto, a seu criador e guru, o ex-presidente Lula. O mal planejado e mal executado projeto da caríssima Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, é um dos produtos dessa simpatia. As consequências econômicas do bolivarianismo e de suas imitações estão resumidas nos fracassos de três governos dos mais desastrosos da América Latina contemporânea.

Mais conteúdo sobre:
Editorial EstadãoPIB

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.