Estratégia – reverter expectativas

Prossigo a série de artigos voltada para uma estratégia diante da atual crise política, econômica e social. Estão disponíveis em opiniao.estadao.com.br/artigo-de-opiniao/ – o primeiro em 19/11/2015 e os demais na primeira e na terceira quintas-feiras de cada mês.

ROBERTO MACEDO*, O Estado de S.Paulo

21 Janeiro 2016 | 02h55

Quando o regime militar se instalou, em 1964, nomeou uma equipe econômica cujos expoentes eram Otávio Gouveia de Bulhões (1906-1990), ministro da Fazenda, e Roberto Campos (1917-2001), do Planejamento e Coordenação Geral. O quadro econômico com que se depararam era muito difícil: crescimento muito fraco em 1963, inflação elevada, desarranjo fiscal e contas externas desequilibradas, entre outros aspectos. Exceto por essas contas, soa familiar no momento atual, não?

Com ajuda do então jovem Mário Henrique Simonsen (1935-1997), eles formularam uma nova política econômica por meio do Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), que envolvia diversas medidas, inclusive reformas estruturais. Desse período surgiram instituições que perduram até hoje. Entre outras, o Banco Central do Brasil, o FGTS, o ICMS (que substituiu o Imposto sobre Vendas e Consignações) e o INPS (hoje INSS). Neste foram agregados institutos setoriais, como os dos industriários, dos comerciários e dos bancários.

Na época estudante de Economia, tomei conhecimento da expressão reversão de expectativas com que os condutores do Paeg defendiam suas propostas e de um modo muito importante para o seu sucesso. Ou seja, que fossem consistentes em sua lógica, compreendidas, implementadas e absorvidas pelos agentes econômicos, em particular empresários e consumidores, para que exorcizassem a desconfiança que os dominava. E, assim, retomassem suas decisões de investir e de consumir que movem a economia. Ora, tais decisões vêm de seres humanos, e também é preciso recorrer à psicologia para influenciá-los.

O Paeg não teve resultados imediatos, mas eles vieram e contribuíram muito para reduzir bastante a inflação e retomar altas taxas de crescimento. E deixou instituições como as mencionadas. Envolvia medidas impopulares e o governo assegurava o poder político que as sustentava.

Como estão hoje as expectativas dos agentes econômicos? Péssimas e sem perspectivas de reversão, pois não se sabe bem qual é o plano de ação econômica do governo federal, o Ministério da Fazenda está sob nova direção e a nossa gerentona trapalhona se enroscou no meio de tantos problemas. E quase que só pensa naquilo, ou seja, como escapar do impeachment.

Diante de mim vejo cinco gráficos que por meio de índices medem mês a mês a confiança de agentes econômicos de forma bem ampla, cobrindo individualmente os seguintes grupos: consumidores, empresários da indústria, da construção civil, do comércio e dos serviços. Três gráficos remontam a 2008 e dois, a 2010. Os últimos números são de outubro ou novembro do ano passado.

Todos esses gráficos mostram seus índices despencando abaixo de suas médias históricas desde meados de 2014 e particularmente em 2015, ao fim do qual todos estavam nos seus menores valores de todo o período. Nada indica ter havido mudanças relevantes desde então.

São conhecidas algumas causas desse processo. Ao longo de 2014 tornou-se disseminada a percepção de um baixo crescimento econômico, de maior inflação e dos vários erros da política econômica da presidente. Depois veio sua reeleição e logo em seguida se constatou que ela havia armado no ano eleitoral um imenso rombo fiscal e prometera o que não poderia cumprir. Ou o faria às avessas, como as menores tarifas de energia elétrica, que, na realidade, aumentaram.

A propósito, vale lembrar que recentemente ela disse que poderiam virá-la pelo avesso que não seriam achados deslizes capazes de justificar seu impeachment. Ela parece gostar de avessos, pois foi quem virou a economia por esse lado, e na área fiscal foi flagrada no ato.

Voltando ao processo de formação de más expectativas, depois que se iniciou por fatores como os apontados, ele adquiriu mais força por sua própria realimentação. As muitas más notícias econômicas se disseminam repetidamente pelos meios de comunicação, prejudicam a atividade produtiva pelo negativismo que impõem às decisões dos agentes econômicos e a coisa segue com seu efeito destruidor. De 2015 em diante com destaque para o desemprego crescente.

Os problemas centrais da crise estão no colo do governo. O Executivo tenta arrumar sua política econômica com opções seriamente limitadas diante de sua fraqueza política. Para avançar precisaria de apoio político comparável ao recebido pelo Paeg, agora em condições felizmente democráticas, mas lamentavelmente caóticas. Onde está o Congresso? Em recesso, enquanto a economia precisa de seu socorro. E o que fará de bom ao retornar em fevereiro? Outro ator influente, o Supremo Tribunal Federal, também está em recesso – e fora dele segue a lentidão típica do Poder Judiciário. Enquanto isso, a economia, doente, definha na fila de atendimento.

Meus artigos desta série focam soluções, mas hoje optei por clamar por elas, sejam de quem forem, pois é desanimador ficar a propor sem ver gente empenhada em ações corretivas. Com isso, a economia avança por uma recessão já adentrando uma depressão e rumo a uma estagnação em estado deprimido.

E vai seguir assim enquanto o País não tiver um comando político capaz de arregimentar apoio para formular um plano estratégico com direção, objetivos, metas e ações eficazes. Economistas e outros profissionais podem dar palpites quanto às soluções, mas o papel de adotá-las, e assim reverter expectativas alimentadas por desconfianças, é da classe política. Como ela é o que é, ressalvadas exceções cada vez mais excepcionais, isso também reforça como cenário mais provável a estagnação em estado depressivo.

* ROBERTO MACEDO É ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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