Eu gostaria de querer ser professor!

Para termos bons professores é necessário melhorar a educação básica, que, por sua vez, depende de bons professores.

Priscila Cruz, O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2016 | 05h00

Se você tiver oportunidade, faça a seguinte experiência numa sala de aula da educação infantil. Pergunte às crianças quem quer ser professor quando crescer. Boa parte – talvez a maioria – vai levantar a mão. Nos anos finais do ensino fundamental o número diminui um pouco. Agora, se você repetir essa mesma pergunta em turmas de ensino médio, não mais do que 2% dos jovens dirão que querem cursar Pedagogia ou alguma licenciatura (pesquisa da Fundação Carlos Chagas).

Ainda que para as crianças o professor seja uma referência mais emocional do que profissional, ele é valorizado e relacionado a uma série de qualidades positivas que povoam o imaginário de aspirações das crianças. Mas conforme elas vão crescendo a carreira docente deixa de ser uma opção atraente. E assim perdemos bons alunos que poderiam tornar-se excelentes professores.

Sempre é bom lembrar que só vamos assegurar a aprendizagem a que todos os alunos têm direito – e de que o Brasil precisa desesperadamente para mudar de patamar de desenvolvimento social e econômico – com bons professores em todas as salas de aula. Essa é a base para todas as demais políticas educacionais terem resultado. Na contramão, estamos atraindo poucos jovens e, ainda por cima, aqueles com baixa proficiência ao final do ensino médio. Para piorar, oferecemos a eles uma formação em nível superior de baixíssima qualidade. 

O resultado não poderia ser outro: 75% dos professores se sentem despreparados para garantir que seus alunos aprendam (pesquisa Conselho de Classe, Fundação Lemann). O impacto dessa conjunção é injusto demais para os alunos: apenas 9% deles aprendem o mínimo esperado em Matemática no fim do ensino médio e 27% em Língua Portuguesa.

Para mudar esse cenário precisamos pôr a educação no centro do projeto de desenvolvimento do Brasil, fazendo com que o professor assuma a posição que lhe é necessária, estratégica e justa: a de principal profissional do país, com formação e carreira adequadas.

Quem são os jovens de que precisamos para assumirem a principal profissão do País? Os bons alunos. Uma forma de ajudar esses bons alunos que veem na docência um caminho profissional seria começar a sua formação ainda durante a educação básica. A reformulação do ensino médio, em discussão no Congresso Nacional e que deverá ser aprovada ainda neste ano, é uma oportunidade extraordinária para isso. 

O projeto de lei prevê a diversificação da oferta de cursos em diferentes itinerários formativos, com concentração em áreas como Matemática, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Linguagens. Podemos explicitar nesse projeto também o percurso da educação. Assim, com os futuros professores identificados mais cedo, além de atrair mais alunos, seremos capazes de concentrar esforços nessa formação, com período integral, correção das defasagens acumuladas nos anos anteriores e já algumas disciplinas introdutórias sobre os processos envolvidos na aprendizagem (como aprendemos) e sobre as estratégias para garantir a aprendizagem (didática), que mais tarde poderão ser aproveitadas nos estudos na Educação Superior, em Pedagogia ou em alguma licenciatura. Dessa forma, começaríamos a investir precocemente e por mais tempo nos futuros professores.

Com a universalização do acesso à educação básica, a docência tornou-se uma profissão muito mais complexa, pois agora, felizmente, também educamos os filhos dos mais pobres, aqueles que têm pouco ou nenhum acesso ao mundo letrado, têm pais com pouca escolaridade. A educação democrática – a que é para todos – é uma política compensatória e, portanto, exige mais recursos, melhor gestão, melhor formação dos professores e gestores; e escolas mais bem equipadas, capazes de promover o acesso das crianças aos bens culturais da nossa sociedade. Nesse cenário, tornou-se imprescindível avançar além da simples retórica da importância da educação. Garantir educação de qualidade com equidade e em escala gigantesca torna imperiosa uma mudança de paradigma na concepção e implementação de políticas públicas.

Portanto, a valorização dos professores de hoje tem de ser diferente daquela que havia “na minha época...”. O professor de hoje tem uma responsabilidade social muito maior do que o professor de ontem. Merece ainda mais respeito como profissional central da construção de um país. Os dados mostram que os jovens que (em número cada vez menor) ingressam nos cursos de formação de professores – tanto em Pedagogia quanto nas licenciaturas – são de nível socioeconômico e cultural mais baixo, têm menor desempenho nas avaliações, trabalham para ajudar a sustentar a família e muitas vezes são a primeira geração a ingressar no ensino superior. Para esses futuros professores não é fácil superar tantas fragilidades acumuladas na formação básica. 

Mas não é impossível. Como é comum na educação, uma coisa depende da outra. Para termos bons professores é necessário melhorar a educação básica, que, por sua vez, depende de bons professores. Para interromper e mudar a direção desse círculo vicioso vamos ter de fazer a escolha de atrair logo no ensino médio os bons alunos que serão professores, investir mais neles ainda antes de concluírem a educação básica e completar a sua formação em nível superior com ampla reforma dos cursos preparatórios para a carreira docente.

Falarei em outro artigo sobre as mudanças necessárias na Pedagogia e nas licenciaturas. E isso tem de ser efetivado o quanto antes, uma vez que 49% dos atuais professores da educação básica da rede pública vão atingir a idade de se aposentar nos próximos dez anos. Essa pode ser uma oportunidade incrível, se soubermos aproveitá-la. Do contrário... Bem, infelizmente, todos já conhecemos essa história.

Priscila Cruz é fundadora e presidente executiva do movimento Todos pela Educação, é mestre em administração pública pela Harvard Kennedy Scholl

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