Europa avança, EUA empacam

Com 440 bilhões para socorrer governos e bancos em apuros, a União Europeia tem agora um instrumento a mais para agir e uma desculpa a menos para deixar prolongar-se a crise das dívidas soberanas. A aprovação da nova Linha Europeia de Estabilidade Financeira (EFSF) acabou sendo mais fácil do que previam, há menos de um mês, autoridades econômicas da zona do euro. A maior dificuldade - inesperada - foi o impasse no Parlamento eslovaco, provocado por um problema político interno e ontem superado. O novo fundo terá mais dinheiro que o anterior e poderá, além disso, comprar bônus de governos, livrando o Banco Central Europeu (BCE) dessa tarefa, e terá liberdade, também, para reforçar o capital de bancos. Poderá, portanto, participar do esquema de capitalização e de blindagem dos bancos esboçado na quarta-feira pelo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso.

O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2011 | 03h06

A Europa avança um pouco mais no rumo da solução da crise das dívidas soberanas e do resgate de um sistema financeiro exposto ao risco de perdas estimadas em até 300 bilhões. A capitalização necessária está calculada em cerca de 200 bilhões e a primeira opção dos bancos, segundo as autoridades financeiras, deve ser a captação de recursos no mercado. A intervenção do setor público deverá ser complementar, segundo o discurso oficial. Mas, ao mesmo tempo, autoridades planejam convencer os banqueiros a aceitar uma perda maior que a imaginada anteriormente numa reestruturação da dívida grega - sem se anunciar, no entanto, um calote oficial.

Ainda será preciso enfrentar dificuldades sérias nas próximas semanas, talvez meses, e até o fundo de estabilidade já é considerado insuficiente. O próprio Durão Barroso defende a captação de recursos para elevar de 440 bilhões para cerca de 2 trilhões o volume de recursos disponíveis.

Do outro lado do Atlântico Norte as dificuldades políticas são mais graves. O Senado americano rejeitou o plano de estímulo econômico e geração de empregos apresentado pelo presidente Barack Obama - um conjunto de gastos e benefícios fiscais com valor estimado em US$ 447 bilhões. Sem conseguir nem sequer apoio suficiente de sua base parlamentar, o presidente americano foi incapaz, até agora, de convencer os congressistas a discutir o plano esquecendo momentaneamente os projetos eleitorais para 2012. Numa segunda tentativa, ele poderá fatiar as propostas e submetê-las separadamente ao Congresso.

Embora a crise fiscal e bancária da zona do euro pareça bem mais grave que a situação americana, o impasse político nos Estados Unidos é neste momento especialmente preocupante. Uma nova fase de estagnação nos Estados Unidos - mesmo sem recessão - terá um custo muito alto para todo o mundo e certamente afetará a segunda maior economia do planeta, a China, hoje o principal motor da economia global.

Diante de todos esses problemas, dificilmente os ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais do G-20 poderão produzir algo relevante nas discussões marcadas para esta sexta-feira e para sábado em Paris. Esse encontro foi marcado como preparação da conferência de cúpula programada para novembro em Cannes. Haverá, na reunião ministerial, temas polêmicos, como a proposta de alguns desenvolvidos a favor de uma liberalização maior das contas de capitais ou de uma acumulação menor de reservas pelos emergentes. Nenhuma das propostas interessa, hoje, ao Brasil e nem à maior parte dos países em desenvolvimento.

Provavelmente haverá novas pressões pela valorização da moeda chinesa, assim como críticas à política monetária expansionista dos Estados Unidos e de outros países desenvolvidos. Uma das consequências dessas políticas é a inundação dos mercados de moedas do mundo desenvolvido, com a consequente e indesejável valorização das moedas dos emergentes, incluído o real. E tudo poderá piorar, se o impasse político americano levar o banco central dos Estados Unidos a uma nova rodada de emissão de dólares. Diante desses perigos, os ministros do G-20 estão desarmados.

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