Evo até 2020

No domingo, a Bolívia reelegeu Evo Morales, que irá para o seu terceiro mandato como presidente do "Estado Plurinacional da Bolívia", título com o qual rebatizou tempos atrás a República boliviana. Sua vitória não foi propriamente uma surpresa. Aliou bons resultados na economia com uma capacidade de se reinventar politicamente, além de uma implacável atuação contra a oposição. Se houve alguma surpresa, foi o resultado não tão folgado. Evo esperava alcançar 74% dos votos, mas a população lhe conferiu 59,7% dos votos apurados até o momento. O segundo colocado, Samuel Doria Medina, está com 25,1% dos votos.

O Estado de S.Paulo

15 Outubro 2014 | 02h07

Evo assumiu a Presidência em 2006. Repleto de gestos simbólicos, fez forte uso político da sua origem indígena. Com retórica bolivarianista, prometeu instalar o "socialismo indígena" e chegou a estatizar importantes setores da economia, como petróleo e gás.

Mas foi pragmático. Conteve a inflação (em torno de 6% ao ano) e alcançou superávit primário nos últimos oito anos. Fez crescer as reservas cambiais, hoje equivalentes a 50% do Produto Interno Bruto (PIB). Soube aproveitar o bom momento dos preços de commodities, como soja, ouro e prata, bem como o aumento das exportações de gás natural, levando o PIB a um crescimento anual superior a 5% nos últimos anos. Segundo o FMI, é a mais alta taxa de crescimento da América Latina.

Analistas indicam que boa parte desse sucesso se deve a seu ministro da Economia, Luis Alberto Arce, formado pela Warwick University (Inglaterra) e de orientação ortodoxa. Arce foi o responsável por manter as finanças públicas sob controle e as contas externas com expressivo superávit. Nesse ritmo de crescimento e com alguns programas sociais, Evo reduziu os níveis de extrema pobreza de 38% para 18%. Também investiu no transporte público e canalizou gás natural para as casas populares. São fatores que conferem ao país uma estabilidade impensável anos atrás.

Com a mesma eficiência que coordenou a economia, Evo Morales criou mecanismos para manter-se no poder. O Poder Executivo reina quase absoluto, controlando o Legislativo e o Judiciário. A Constituição, aprovada em 2009 e redigida sob a supervisão de Evo, permite apenas dois mandatos presidenciais consecutivos de cinco anos, mas o Supremo Tribunal boliviano interpretou-a ao gosto de Evo. O tribunal entendeu que seu primeiro mandato não devia entrar nessa contagem, por ter transcorrido antes da mudança constitucional. O Tribunal Eleitoral, por sua vez, determinou que a duração da campanha na TV fosse de apenas 30 dias, reduzindo as chances da oposição nas urnas. Chances já pequenas em razão da perseguição do governo aos principais líderes da oposição, que tiveram de se exilar ou sofreram processos judiciais não de todo isentos. Em março deste ano, um promotor de Justiça, que fiscalizava algumas ações do governo, precisou pedir refúgio no Brasil, em razão de perseguição política.

Durante a campanha, a oposição questionou o uso desproporcional dos meios de comunicação estatais em favor de Evo. Isso sem contar que o maior jornal privado boliviano, La Razón, depois de pressões de Morales, foi para as mãos de um proprietário mais favorável ao governo. Ou seja, o resultado das eleições não se deve apenas aos resultados da economia.

No seu terceiro mandato, desafios não pequenos esperam Evo Morales. Preocupa a baixa taxa de investimento (18% do PIB) e o preço do gás natural - do qual depende boa parte do boom boliviano - está em queda. E as intervenções do Estado na economia afastaram boa parte dos investidores, pela estatização de importantes setores e pela nova lei dos bancos, de 2013, que tabela os juros.

Evo dedicou a vitória eleitoral a Fidel Castro, a Hugo Chávez e a todos os governos e povos "anti-imperialistas" do mundo. Resta agora saber se ele continuará combinando retórica bolivarianista com pragmatismo econômico. E se deixará que outro se sente na cadeira presidencial a partir de 2020.

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