Evo Morales é desafiado

Mesmo com toda a máquina estatal a seu favor, além da perseguição à imprensa livre e aos opositores do regime, o presidente da Bolívia, Evo Morales, sofreu importante derrota nas eleições regionais de domingo passado.

O Estado de S.Paulo

01 Abril 2015 | 02h08

O governo e seus simpatizantes dirão, é claro, que o MAS (Movimento ao Socialismo), partido de Morales, saiu do pleito confirmando sua condição de maior força política boliviana. E não há dúvida sobre isso: a legenda conquistou a maioria das 339 prefeituras e das cadeiras nas assembleias regionais e nos conselhos municipais. No entanto, alguns resultados demonstram que esse formidável poder - garantido na base não só da competência política de Morales, mas também da força e da intimidação de um governo autoritário - pode estar sofrendo um desgaste maior do que se poderia presumir, especialmente depois da acachapante vitória do presidente na eleição de outubro passado, quando foi reeleito com mais de 60% dos votos.

A vitória mais significativa da oposição ocorreu na disputa pela prefeitura do município de El Alto, considerado o principal bastião político do governo de Morales - ele ganhou todas as eleições na cidade desde 2005 -, além de ter sido a base de movimentos populares que forçaram a queda de dois presidentes, Gonzalo Sánchez de Lozada e Carlos Mesa, entre 2003 e 2005.

Conforme números ainda provisórios, o atual prefeito de El Alto, Edgar Patana, do partido de Morales, teve cerca de 30% dos votos, contra 55% de Soledad Chapetón, candidata opositora que, assim como o presidente, é indígena de origem aimara. Soledad, de 34 anos, fez campanha dizendo que "El Alto não é propriedade de nenhum partido".

Segundo os jornais bolivianos, Patana - um dos maiores agitadores da insurgência contra Sánchez de Lozada - está envolvido em grave escândalo de corrupção, e a percepção geral é que esse fator foi decisivo para a sua derrota.

Com inusitada humildade para alguém que se propõe a "refundar" a Bolívia, Morales admitiu que o resultado em El Alto é "preocupante" e que talvez o eleitor tenha punido seu partido em razão da roubalheira. "Se é verdade (a acusação contra Patana), então o povo deu um voto para castigar a corrupção. Sendo assim, felicito o povo de El Alto", disse.

Outra notável derrota se deu no Departamento (Estado) de La Paz, igualmente um bastião do MAS. A candidata oficialista, a indígena Felipa Huanca, ficou com menos de 29% dos votos, contra 52% do opositor Félix Patzi, outro aimara, conforme pesquisas de boca de urna. Nesse caso, porém, Morales preferiu atribuir a derrota não aos deméritos da candidata - também acusada de corrupção - ou de seu partido, mas a desvios de caráter do eleitor. Para o presidente, aqueles que lhe negaram os votos em La Paz demonstraram "machismo" e "discriminação" contra uma "mulher originária camponesa". Morales disse que, quando acompanhou Felipa na campanha, percebeu que "as mulheres a olhavam de esguelha", com "inveja e cobiça".

Dos nove governos de Departamento em disputa, o MAS foi derrotado em três e terá de enfrentar segundo turno em dois. Os resultados indicam que, depois de quase dez anos de Morales no poder, os bolivianos começam a indicar que estão dispostos a escolher alternativas políticas na oposição.

Não se pode dizer que os opositores vitoriosos tenham triunfado em razão de alguma articulação nacional - na prática, portanto, Morales ainda não enfrenta uma ameaça eleitoral séria. Mas os sintomas de desgaste ficaram claros, e a oposição conseguiu se organizar em nível local para desafiar o ubíquo poder do presidente. Houve quem exagerasse esse triunfo - Samuel Doria Medina, que já perdeu duas eleições para Morales, declarou que estava se abrindo "uma nova etapa na história política da Bolívia". Devaneios à parte, parece claro que a influência do MAS apresenta sinais de enfraquecimento e que, após tanto tempo de domínio político quase absoluto, Morales finalmente foi tirado de sua zona de conforto.

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