Ex-diabo Fidel Castro veste Adidas

Cheguei a este artigo após examinar roupa com que Fidel Castro aparece nas fotos ao ser visitado pelo papa em Havana, no último dia 20. O visitante veio mesmo como um papa, com suas tradicionais vestes brancas e os adereços usuais, enquanto o visitado vestia camisa branca e agasalho esportivo da marca Adidas.

ROBERTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2015 | 02h55

Em casa, idoso (89 anos) e fragilizado por uma doença, não seria apropriado cobrar dele seu traje usual no passado, a farda verde-oliva e um boné da mesma cor e do mesmo estilo, militar. Na linguagem desse ramo, nem se pode dizer que Fidel tenha passado à reserva. Simplesmente aguarda outra passagem.

O título deste artigo foi inspirado pelo de um filme, O Diabo Veste Prada. Coloquei ex-diabo porque, no passado, Fidel era demonizado por muita gente como praticante local e pregador de revoluções comunistas em outros países. Mas também tinha e ainda tem muitos adeptos, para os quais se tornou como que um santo canonizado em vida. Mesmo se não incluído nesse grupo, há quem o visite para aparecer na mídia e para fazer média com grupos políticos que em seus países ainda veneram Fidel.

Se ele se sente confortável com um agasalho esportivo, tanto melhor. Ademais, a simplicidade é condizente com sua ideologia comunista. O que mais me chamou a atenção foi presença conspícua da marca Adidas no agasalho, o que não me parece ser coerente com essa ideologia.

Marcas como essa são típicas do sistema capitalista, em que empresas tentam escapar da concorrência entre vários produtores de um mesmo bem ou serviço homogêneo. À medida que mais produtores entram num mercado desse tipo, eles tendem a auferir apenas o chamado lucro normal. Mas muitos empresários buscam um ganho maior, diferenciando seus produtos ou serviços por meio do desenho, do estilo, da qualidade ou outros aspectos que atraiam mais consumidores.

Para identificar esses aspectos se recorre até mesmo a estudos de neuromarketing, para saber o que se passa na mente dos consumidores e como exercer influência sobre suas decisões. Nesse contexto, a marca sintetiza e simboliza as características do que se vende e gera um efeito cumulativo quando a adesão a ela se torna um modismo para grande número de consumidores, estimulados por enorme carga publicitária. Fidel caiu nesse jogo capitalista.

Certa vez estive em Moscou, antes da queda da União Soviética, e tive a curiosidade de entrar num supermercado, onde vi produtos como farinha de trigo, açúcar e sal embalados em simples sacos de papel apenas com menção do seu peso e seu conteúdo, sem nenhuma marca. Percebi que isso era coerente com o sistema econômico então adotado por lá.

Voltando à Adidas, marca alemã, pesquisei na internet e vi que se trata de preferência antiga de Fidel em presenças públicas e em recepções a chefes de Estado. Vi fotos dele com agasalhos Adidas desde 2007. Excepcionalmente, com a Umbro, inglesa, mas nada da Nike, provavelmente por ser americana. Chegou a usar versões customizadas dos agasalhos da Adidas com as cores da bandeira cubana e o nome dele bordado. Mais recentemente, fixou-se num modelito simples preto ou azul, com o qual também recebeu, além do papa, Cristina Kirchner e François Hollande. E em visitas desse tipo não poderiam faltar Dilma Rousseff e Lula. Ela, coerentemente, com um vestido mais para vermelho, e felicíssima da vida. Saiu bem na foto e deve ter ganhado pontos entre companheiros. Numa das vezes em que Lula foi ao ídolo, chegou com camisa de um vermelho ainda mais gritante. Na roupa, portanto, ambos são mais coerentes que Fidel.

Estaria ele recebendo cachê da Adidas? Não o criticaria por isso, mas interessaria à empresa? Numa notícia sem data na internet, um representante dela disse que o efeito para a marca não seria positivo nem negativo: “Nós somos marca esportiva. Fabricamos para atletas, e não para líderes”. Minha explicação é a de que a marca vestiu atletas olímpicos de Cuba, o que pode ter levado ao apego de Fidel a ela, até porque nessas ocasiões ele deve ter sido também agasalhado pela fabricante. Mas com o uso inapropriado que faz da marca Fidel pode ter-lhe trazido problemas, pois foi parar numa lista dos dez líderes mundiais mais mal vestidos do site da revista Time.

Com suas velhas convicções, Fidel Castro também já ficou fora de moda. Há esse culto à sua personalidade, mas seu país é pequeno e tem cerca de 11,5 milhões de habitantes, número bem próximo ao da capital paulista. A revolução castrista chegou ao poder em 1959 e ele foi o todo-poderoso até renunciar por motivos de saúde. Primeiro em 2006 e definitivamente em 2008. Depois de quase 60 anos no poder, a revolução cubana não trouxe significativa prosperidade ao país, ainda que com reconhecidos avanços sociais e na área da saúde, entre outros. Contudo Fidel já saiu das cenas relevantes e seu irmão Raúl é que vem dando outros rumos ao país.

Não tinha outra saída, dados o insucesso econômico do modelo adotado, o avanço da globalização e o fim da antiga União Soviética, que ajudava a sustentar Cuba. Com esse fim veio também o forte arrefecimento, se não o fim, da guerra fria, na qual Cuba também estava inserida para incomodar os EUA. E nesse contexto mundial o marxismo perdeu ainda mais como alternativa econômica.

Cuba acaba de reatar relações com os Estados Unidos, quer o fim do bloqueio econômico que sofre desse país. E do Brasil ganhou até um porto financiado a longo prazo com juros subsidiados.

A tendência é o país se abrir para o exterior com maior vigor e perder ainda mais a influência que tinha na América Latina e no Caribe. Aqui, contudo, ainda há fortes resquícios de sua influência ideológica e, lamentavelmente, sobre o lulodilmopetismo e seus desmandos no governo federal, com repercussões sobre a crise que o Brasil hoje atravessa.

* ROBERTO MACEDO ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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