Excessos da carne

Sem uma profunda renovação moral da sociedade seguiremos arando no mar

Carlos Alberto Di Franco*, O Estado de S.Paulo

27 Março 2017 | 05h00

Foram assustadoras as primeiras suspeitas divulgadas com a deflagração da Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, sobre cumplicidade entre frigoríficos e fiscais do governo visando à venda ilegal de alimentos no País e no exterior. A Polícia Federal (PF) afirmou que os frigoríficos exerciam influência no Ministério da Agricultura para escolher os servidores que ficariam responsáveis pela fiscalização de suas unidades. Executivos da BRF, dona das marcas Sadia e Perdigão, tinham até acesso a uma senha para entrar no sistema interno dos processos administrativos do órgão, de acordo com a polícia.

A se confirmarem as alegações da PF, trata-se de caso em que as implicações da corrupção vão além da imaginação. Está em risco a própria saúde dos consumidores.

Fechamos aquela semana em clima de pânico. Carne com papelão. Ácido cancerígeno na salsicha. E por aí foi. As redes sociais se encarregaram de amplificar o show de horrores. Mas nós, jornalistas da chamada imprensa de qualidade, não soubemos separar o joio do trigo. Ficamos reféns da narrativa precipitada da PF. Faltaram apuração e edição criteriosa. A Operação Carne Fraca ganhou acordes em lá maior. Foi conduzida com pouco cuidado. Desvios de alguns executivos e funcionários jogaram no lixo a reputação de todas as empresas.

Ex-ministro da Agricultura e presidente da associação que reúne produtores e exportadores de carne suína e de frango, Francisco Sérgio Turra afirmou que a repercussão da Operação Carne Fraca foi exagerada, dando a impressão de que a carne brasileira é toda fraudada. “Foi muito forte esse discurso irresponsável, fruto de um levantamento ainda incompleto da própria operação (da Polícia Federal)”, disse em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. Segundo ele, os produtores brasileiros mantêm padrões de qualidade elevados e as falhas identificadas pelas autoridades não pegam nem 0,5% do setor.

O estrago econômico potencialmente devastador, porém, está feito. Estão sob ameaça exportações anuais de US$ 14,5 bilhões em produtos com proteína animal. O Brasil levou anos para remover a desconfiança de autoridades sanitárias de outros países e disputar o mercado mundial de carne. Agora, infelizmente, estamos sob suspeita.

Os excessos da PF devem ser condenados. Mas a corrupção, mesmo pontual e minoritária, deve ser exemplarmente punida. É necessário dar um basta a isso. Quando vamos romper esse ciclo? Quando vamos assistir, de fato, à punição dos culpados? A repetição dos escândalos produz um perigoso fatalismo. Quando se banaliza a corrupção se banaliza a culpa. O risco é de que se torne um comportamento epidêmico. Para onde vamos?

Uma das causas dos crimes e dos desvios de comportamento que castigam a sociedade brasileira é, sem dúvida, a certeza da impunidade. O criminoso sabe que a probabilidade de um longo período de reclusão só existe na letra morta da lei. O Brasil, como bem sabemos, não padece de anemia legal. O nosso drama é a falta de eficácia na aplicação da lei.

Há, contudo, estou convencido, causas ideológicas mais profundas para o eclipse da ética e para a explosão das ações criminosas. O relativismo ético, a ausência de limites e a crise da família estão na raiz da patologia social.

De fato, quantas correntes ideológicas, quantos modismos intelectuais vivemos nas últimas décadas? A busca da verdade é frequentemente etiquetada como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor da última novidade, aparece como a única atitude à altura dos tempos que correm. Vai-se constituindo a intolerância do relativismo que não reconhece nada como definitivo e usa como critério apenas o próprio eu. A renúncia à verdade não soluciona nada, ao contrário, conduz à ditadura da arbitrariedade. O relativismo está, de fato, na origem do enfraquecimento da democracia e nas agressões cada vez mais brutais aos direitos humanos.

Há no cerne da crise uma profunda raiz ideológica. Na verdade, as bases racionais da modernidade foram minadas pelo relativismo. Rompeu-se, dramaticamente, o nexo de união entre vontade e razão. Dessa forma, as pessoas passaram, no seu comportamento prático, a confundir gosto com vontade, sem conseguir captar as profundas diferenças existentes entre ambos. Por isso cada vez mais o gosto, o capricho, o prazer (incluindo as suas manifestações mórbidas e doentias) passaram a impor sua força cega. Um dos traços comportamentais que marcam a decomposição ética da sociedade é, efetivamente, o desaparecimento da noção da existência de relação entre causa e efeito. A responsabilidade, consequência direta e lógica dos atos humanos, simplesmente desapareceu. O fim justifica os meios. Sempre.

Trata-se da consequência lógica do raciocínio construído de costas para a verdade e para a ética. O político não tem limites na busca do poder. O burocrata avança no dinheiro público. E alguns empresários vendem carne estragada para aumentar a lucratividade do negócio. É terrível, mas é assim.

A desestruturação da família está também no miolo do caos social. É no âmbito da família que se desenvolve o cidadão honrado. E é na sua ausência que cresce a sombra da futura delinquência. Não é difícil imaginar em que ambiente familiar terão crescido os integrantes de gangues que se divertem assaltando o Estado, roubando a sociedade e esbofeteando o sofrimento dos cidadãos.

Se não houver uma profunda renovação moral da sociedade, seguiremos arando no mar. As análises dos especialistas esgrimem inúmeros argumentos. Fala-se de tudo. Menos das raízes profundas da crise: o relativismo ético, a ausência de limites, a impunidade e a ruptura da família. Mas o nó está aí. Se não tivermos a coragem e a firmeza de desatá-lo, assistiremos a uma espiral de comportamentos criminosos e antiéticos sem precedentes.

Sem uma profunda renovação moral da sociedade seguiremos arando no mar

*É jornalista. E-mail: difranco@ise.org.br

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