Expectativas desinfladas

Com a incerteza política aumentada a partir das novas pressões contra o presidente da República, diminuiu a confiança quanto às condições de emprego e às finanças familiares

O Estado de S.Paulo

27 Junho 2017 | 03h00

Inflação em queda é um dos poucos sinais de otimismo nas projeções e sondagens divulgadas nos últimos dias, mas nem essa previsão é suficiente para animar o consumidor e movimentar mais intensamente o varejo. Com as famílias ainda pouco dispostas a gastar e a se endividar, a indústria tem pouco estímulo para aumentar a produção e recompor estoques, exceto no caso das empresas mais envolvidas na exportação. Com a incerteza política aumentada a partir das novas pressões contra o presidente da República, diminuiu a confiança quanto às condições de emprego e às finanças familiares, segundo a pesquisadora Viviane Seda Bitencourt, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), coordenadora da Sondagem de Expectativas do Consumidor. O índice de confiança caiu 1,9 ponto em junho, para 82,3 pontos, e com isso se anulou o ganho observado em maio. A pouca disposição de ir às compras é evidenciada também pelo indicador da Confederação Nacional da Indústria (CNI). O resultado pouco variou de maio para junho, com recuo de 101 para 100,5 pontos, número 7,4% inferior à média da série iniciada em 2001.

Mesmo a aposta na baixa da inflação tem alcance limitado, como indica a pesquisa Focus, conduzida semanalmente pelo Banco Central (BC) com uma centena de instituições financeiras e consultorias. A mediana das projeções captadas na pesquisa aponta aumento de preços de 3,48% em 2017, 4,30% em 2018 e 4,25% em 2019. Os números previstos para este ano e para o próximo são menores que os da semana anterior, mas o indicado para 2019 é uma repetição.

Os economistas do mercado parecem ter pouco ou nenhum motivo para esperar nos próximos dois anos inflação muito abaixo da atual meta de 4,5%. Para eles, além disso, a taxa básica de juros, determinada pelo BC, estará em 8,5% no fim deste ano e permanecerá nesse nível até o fim de 2019, de acordo com as estimativas. Há pouca esperança, aparentemente, de um avanço maior no controle da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

Talvez uma redução da meta anual para 4,25%, na reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN), na quinta-feira, reforce a expectativa de uma contenção maior das pressões inflacionárias. Mas convém, antes de avançar no assunto, esperar a decisão do CMN, formado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento e pelo presidente do BC.

Por enquanto, a perspectiva de preços mais contidos está fortemente associada ao cenário de baixo crescimento econômico. A recessão pode ter sido superada, mas as previsões para evolução do Produto Interno Bruto (PIB) continuam muito moderadas. De fato, têm piorado. Em quatro semanas a projeção para 2017 passou de 0,49% para 0,39%. A estimativa para 2018 recuou de 2,48% para 2,10% nesse período. A estimativa para 2019 ficou em 2,50%, mesmo número apontado na semana anterior.

A expectativa quanto à produção industrial é especialmente sombria. A expansão estimada para este ano passou de 1,30% há quatro semanas para 0,55%. Para 2018, essa projeção caiu em uma semana de 2,50% para 2,30%. Se confirmadas essas previsões, a indústria continuará ainda por muito tempo operando bem abaixo do ritmo anterior à recessão. Uma das consequências será uma recuperação muito lenta de empregos formais classificados como decentes, tanto pelos salários quanto pela segurança contratual e pelos benefícios complementares.

Um quadro político mais estável, com avanço mais seguro dos ajustes e reformas, com certeza produzirá a confiança necessária para o aumento do consumo, o crescimento da produção industrial e a retomada do investimento na capacidade produtiva. Esses investimentos, tanto no setor privado quanto na infraestrutura, serão essenciais para o aumento do potencial produtivo e, portanto, para a elevação da capacidade de crescimento econômico e de criação de empregos. É ilusório apostar no descolamento duradouro entre economia e política, se faltar ao governo força para promover os ajustes, mudanças e investimentos indispensáveis.

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