Extremismo vence em Israel

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, reelegeu-se com um discurso próprio da extrema direita do país. O tom agressivo do premiê na véspera da eleição, em busca dos votos dos radicais, sugere que ele e seu partido, o Likud, abandonaram qualquer forma de moderação. Uma vitória obtida a esse preço, que incluiu declarações desairosas do premiê a respeito dos eleitores árabes e seu repúdio à criação do Estado palestino, torna muito mais difícil qualquer forma de diálogo com os palestinos - e, pior, pode acentuar o caráter antidemocrático do tratamento dispensado à minoria árabe, ampliando tensões com potencial explosivo.

O Estado de S.Paulo

20 Março 2015 | 02h06

O triunfo de Netanyahu representa, portanto, um revés, sob vários aspectos. O mais óbvio é a relação com os palestinos, que já não atravessava o seu melhor momento. Com as pesquisas de intenção de voto apontando sua derrota dias antes do pleito, o premiê deu uma entrevista em que anunciou que, se reeleito, não permitiria a formação de um Estado palestino. "Acredito que qualquer um que queira criar um Estado palestino hoje e retirar gente dessas terras está dando espaço para ataques do islã radical contra Israel", disse. Quando o repórter lhe perguntou se isso significava que não haveria um Estado palestino enquanto ele fosse premiê, respondeu: "Correto".

Essa posição contrasta com o compromisso que ele assumiu, há seis anos, quando chegou ao poder. Na ocasião, Netanyahu disse que estava "disposto a um verdadeiro acordo de paz" caso os palestinos aceitassem o caráter judaico de Israel e a desmilitarização do futuro Estado palestino.

Mas a séria ameaça de perder a última eleição para uma coalizão de centro-esquerda levou Netanyahu a investir no medo. Nesse esforço, ele apelou para o eleitor da extrema direita. No dia da eleição, o premiê advertiu os direitistas indecisos que "os árabes estão indo em massa para as urnas" e que, portanto, "o governo de direita está sob ameaça". A declaração foi amplamente qualificada de racista em Israel. Um ex-dirigente da oposição trabalhista definiu bem o caso: "Imaginem um primeiro-ministro ou presidente em qualquer democracia advertir que seu governo está em perigo porque, por exemplo, os eleitores negros estão votando em massa. É asqueroso, não?".

Esse tipo de comportamento radical nas eleições não é incomum na trajetória de Netanyahu, que está a caminho de se tornar o mais longevo premiê de Israel. Uma vez vitorioso, ele costuma abrandar suas declarações - em relação ao que disse sobre o Estado palestino, por exemplo, o premiê já voltou atrás, dizendo que continua comprometido com a solução de dois Estados.

Mesmo que Netanyahu recue aqui e ali de suas bravatas de palanque, no entanto, parece claro, a esta altura, que Israel entrará numa fase ainda mais trevosa, porque o premiê se reelegeu com o voto dos extremistas e é com eles que terá de formar seu gabinete. O novo governo, por sua vez, terá de lidar com um cenário em que a minoria árabe - vergonhosamente espezinhada na campanha por Netanyahu - conseguiu se tornar, pela primeira vez, a terceira força do Parlamento israelense.

Ao adernar para a extrema direita e colocar em dúvida a ideia de dois Estados como solução para o conflito com os palestinos, Netanyahu arrisca também a posição privilegiada de Israel na relação com os Estados Unidos. Tradicionalmente, os americanos - não apenas o governo, mas a maioria de seus cidadãos - apoiam Israel porque aquele país, segundo sua interpretação, representa o sonho democrático em meio às tiranias do Oriente Médio. Se o governo de Israel adotar posições tão radicais que inviabilizem a própria democracia e as já precárias relações do país com os palestinos, o encanto da relação com os Estados Unidos pode se quebrar. Essa possibilidade ficou clara quando o governo americano, ante as ameaças de Netanyahu, anunciou a disposição de apoiar uma resolução na ONU a favor da criação do Estado palestino caso Israel resolva abandonar de vez as negociações.

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