Falando para o Islã

Numa passagem de seu discurso de 25 minutos no Parlamento turco, em Ancara, na segunda-feira, o presidente Barack Hussein Obama - como foi apresentado ao plenário - agradeceu a participação dos muçulmanos-americanos no enriquecimento dos Estados Unidos. Poderia ter ficado nisso o salamaleque, não fosse Obama quem é. Mas ele prosseguiu: "Muitos americanos têm muçulmanos na família, ou viveram em países de maioria muçulmana. Eu sei, porque sou um deles." E nesse momento, exibindo seus dotes oratórios, fez uma pausa, para dar tempo à tradução simultânea. Foram 5 segundos de silêncio. Então os aplausos espocaram. Um repórter registraria que, ao deixar o recinto, Obama foi engolfado pelos deputados que se acotovelavam para cumprimentá-lo. Parecia, relatou, o Congresso dos Estados Unidos quando o presidente termina o discurso do Estado da União.O episódio, um entre outros semelhantes nessa sua primeira viagem ao exterior depois da posse, demonstra que Obama, sem ter ainda completado três meses na Casa Branca, parece cada dia mais perto de se credenciar como grande estadista - pela extraordinária aptidão para pôr em palavras e expressar em atos carregados de simbolismo as suas intenções políticas, principalmente na frente externa. Na Turquia, última etapa programada de sua viagem à Europa, a que acrescentou uma visita-surpresa ao Iraque, Obama via a oportunidade de manifestar pela primeira vez, à sombra das mesquitas, a sua decisão de aproximar os EUA do mundo muçulmano. Fez isso de três maneiras no discurso em Ancara, sabendo que seria visto e ouvido pelos muitos milhões de espectadores das redes de TV Al-Jazira e Al-Arabiya, que cobriam o evento ao vivo. Primeiro, com cristalina clareza, afirmou que "os Estados Unidos não estão e nunca estarão em guerra com o Islã", antes de invocar o mantra do "interesse mútuo e o mútuo respeito" como base para o amplo entendimento que propunha.Segundo, no mesmo tom, não só reiterou o compromisso do seu governo com a solução dos dois Estados para o conflito israelense-palestino, como refutou o novo chanceler de Israel, o ultranacionalista Avigdor Lieberman. Há pouco ele disse que "não têm validade" os acordos nesse sentido firmados na conferência de paz de Anápolis, em 2007. Citando a reunião, Obama declarou que "apoia firmemente e se empenhará em alcançar" os objetivos nela definidos. Mas foi a sua autoinclusão nas famílias americanas com membros muçulmanos (no seu caso, pelo lado paterno) a referência mais forte a que poderia recorrer para sensibilizar o Islã. Forte e corajosa: ainda hoje, ecoando a falsidade lançada contra ele na campanha presidencial, a direita radical americana insiste em que Obama é um muçulmano secreto. O que torna particularmente fascinante o seu desempenho é o cenário em que se deu. Na encruzilhada entre Ocidente e Oriente, a Turquia é uma democracia secular, que reivindica o ingresso na União Europeia (com o apoio de Obama e a oposição da França e da Alemanha). Mas a grande maioria da população pratica o islamismo e as tensões entre religião e Estado são ali crescentes. A velha elite dirigente ocidentalizada teme a ascensão das forças sociais que se identificam por sua fé e que elegeram o atual primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, de família islâmica. Por razões diferentes, os turcos se indignaram quando, em 2004, o então secretário de Estado americano, Colin Powell, classificou o país como "moderadamente islâmico". Os seculares, por serem ciosos do seu Estado leigo. Os religiosos, por não se considerarem menos muçulmanos do que quem quer que seja. Obama percorreu esse fio estendido com a segurança de um equilibrista profissional - o que também dá a medida de seu talento político. Louvou a "democracia secular forte e vibrante" legada por Mustafa Kemal Ataturk, que revolucionou a Turquia nos anos 1920, mas também visitou duas mesquitas históricas em Istambul e se reuniu com clérigos muçulmanos para enviar "uma mensagem de tolerância"."Ele disse as coisas certas sem causar desconforto a ninguém", comentou um jornalista turco. Escreveu outro: "Foi preciso um jovem líder estrangeiro em sua primeira visita ao país para nos lembrar de tudo o que somos e de muito mais."

, O Estadao de S.Paulo

09 de abril de 2009 | 00h00

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