Falas do presidente

O único consolo que se encontra ao ouvir certas falas, digamos, inconsequentes, do presidente Lula é a comprovação, às vezes até imediata, de que o que disse o presidente não corresponde ao que faz o seu governo. Tome-se o caso da manutenção da redução do IPI. Disse o presidente, durante o lançamento das obras de revitalização do Porto do Rio, referindo-se a recado que havia dado a um grupo de empresários: "Eu falei para eles: em vez de a gente ficar desonerando o tanto que está desonerando, é melhor pegar esse dinheiro e dar para os pobres. Se os pobres tiverem dinheiro e forem comprar, vocês têm de produzir. Agora, a gente desonera e vocês não repassam para o custo do produto. Nós já desoneramos nesse meu mandato R$ 100 bilhões. Imagina R$ 100 bilhões na mão do povo!" Pois bem. No momento em que Lula dizia isso seu ministro da Fazenda, Guido Mantega, se preparava para lhe entregar a proposta de prorrogação da redução do IPI para automóveis, produtos da construção civil, eletrodomésticos e outros setores - medidas a serem anunciadas na segunda-feira. É que há dias Lula tinha se manifestado a favor dessa prorrogação, mesmo contrariando a opinião de setores de seu governo, para os quais a desoneração já tinha cumprido seu papel de estimular a produção neste momento de crise. E não deixamos de elogiar o presidente, nesta página editorial, por essa posição. O problema é a confusão, quando as palavras de um chefe de Estado vêm e vão... já que os setores produtivos, que precisam programar investimentos, não têm certeza de que o insinuado fim do alívio momentâneo na carga tributária - para enfrentar a crise - é um simples "desabafo" do presidente, como garantem seus assessores. Aliás, o desabafo presidencial até preocupa quando se reporta a coisas ainda não bem digeridas por ele, como a "perda" da CPMF, derrubada no Congresso em 2007 com o apoio de entidades empresariais. "Perdemos R$ 40 bilhões do Orçamento da União para cuidar da saúde deste país e eu não vi ninguém reduzir os preços no 0,38% da CPMF. E quem perdeu foi essa gente aqui", disse o presidente, apontando para os operários da plateia. "Disseram: se a gente deixar R$ 40 bilhões por ano na mão do Lula, ele vai ganhar as eleições. Ganhei. E vamos ganhar outra vez. O povo não aceita mais mesquinharia, não aceita mais baixaria" - continuou, "esquecido" de que sua queixa não procede, porque a CPMF foi usada para tudo, menos para aumentar as verbas para a saúde. Quanto ao povo não aceitar mais "mesquinharia" ou "baixaria", o presidente tem toda a razão. E a prova disso é a reação da opinião pública aos escândalos do Senado. Agora, o presidente afirmar que os jornais têm "predileção pela desgraça", referindo-se à cobertura do megaescândalo, é o mesmo que dizer que os médicos têm "predileção pela doença", os criminalistas têm "predileção pelo crime", os bombeiros têm "predileção pelo fogo" ou os lixeiros têm "predileção pelo lixo". Como é óbvio, não se trata de uma questão de gosto - antes, pelo contrário. A imprensa tem que tratar inclusive daquilo em relação ao que sente nojo - e não predileção. E se em todo esse escândalo tem havido manifestação explícita de "predileção", esta é a que o chefe do governo demonstra sentir pela pessoa "incomum" do presidente do Senado. E esta é uma desgraça que, decisivamente, ninguém prefere. Esgotada a agenda (sempre eleitoral) dos assuntos nacionais, Lula aproveitou o ímpeto oratório insopitável de terça-feira para reabilitar-se, um pouco, do papelão que fez ao defender, com unhas e dentes, a fraude eleitoral no Irã, que escandaliza o mundo. Embora mantendo sua dedução "lógica" segundo a qual se um candidato obteve 62,7% dos votos e seu adversário 33% não pode ter havido fraude, Lula criticou a violência da repressão das autoridades iranianas, ante a onda de protestos de oposicionistas - e deu alguns conselhos aos aiatolás sobre como conciliar a lei teocrática com a lei democrática. E encerrou a jornada ouvindo mais um caloroso elogio do presidente americano Barack Obama: na companhia da presidente do Chile, ele é o que há de melhor em matéria de liderança política na América Latina. Quanto a isso - inconsequências à parte - não há a menor dúvida.

, O Estadao de S.Paulo

25 de junho de 2009 | 00h00

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