Falta a solução para os bancos

Empenhado em vencer uma crise de amplitude ainda ignorada, o governo americano vai lançar mais US$ 275 bilhões no mercado imobiliário, onde se formou, nos últimos anos, o maior desastre financeiro desde a crise dos anos 30. Desse total, US$ 75 bilhões serão destinados a socorrer até 9 milhões de mutuários encalacrados com as dívidas da casa própria. O resto será usado para reforçar as contas das duas grandes agências hipotecárias controladas pelo setor público, a Fannie Mae e a Freddie Mac. Esse dinheiro vai somar-se ao pacote de US$ 787 bilhões aprovado pelo Congresso e sancionado na terça-feira pelo presidente Barack Obama e ao programa de US$ 2 trilhões de estabilização do setor financeiro apresentado na semana anterior pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner. Apesar dessa montanha de recursos, há muita incerteza quanto à recuperação da economia, especialmente porque a situação dos bancos permanece precária. Não haverá solução segura para a crise - este é um dos pontos de consenso - enquanto o sistema de crédito não for reparado. Isso pode justificar a estatização temporária de bancos, admitiu o ex-presidente do banco central americano Alan Greenspan, um dos principais porta-bandeiras do pensamento liberal nas duas últimas décadas. "Entendo que, uma vez a cada cem anos, isso é o que deve ser feito", afirmou. Na Alemanha, o governo decidiu não esperar tanto tempo para assumir, se necessário, o controle de bancos. Um projeto elaborado pelo gabinete da primeira-ministra Angela Merkel, se convertido em lei pelo Parlamento, permitirá a estatização compulsória de bancos "sistemicamente relevantes", em caso de necessidade. O objetivo, por enquanto, é salvar uma grande instituição de crédito imobiliário, a Hypo Real State Holding, já socorrida inutilmente, em setembro, com 102 bilhões (cerca de US$ 128 bilhões). Se ocorrer, será a primeira estatização de um banco desde os anos 30, isto é, desde o nazismo. Mas não será suficiente os americanos e europeus ocidentais cuidarem de seus problemas. A crise está causando estragos consideráveis no Leste Europeu, nas economias do velho bloco socialista. Se esses países quebrarem, as áreas mais desenvolvidas da Europa Ocidental - já em recessão - também serão afetadas. Os ex-socialistas terão de rolar neste ano US$ 400 bilhões, um quarto do financiamento recebido nos últimos anos de seus vizinhos mais avançados. Um calote poderia causar um desastre bancário na Áustria e o efeito se espalharia rapidamente pelo mercado europeu. Os problemas nas economias do Leste Europeu são a consequência menos surpreendente da crise internacional. Várias dessas economias cresceram aceleradamente durante anos, mas seus fundamentos não foram reforçados. O FMI e outras instituições vêm apontando há anos a vulnerabilidade desses países, quase todos com desequilíbrios importantes nas contas externas, contas públicas frágeis e inflação bem acima da média mundial. A instabilidade nas bolsas europeias tem refletido, em parte, as preocupações com a situação precária desses países. O presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, recomendou à União Europeia uma ação coordenada de apoio às economias do Leste Europeu. A assistência do FMI a esse grupo de países começou no ano passado, quando o quadro global começou a piorar rapidamente. Em novembro, a Diretoria Executiva da instituição aprovou um programa de ajuda de US$ 16,4 bilhões à Ucrânia e outro de US$ 15,7 bilhões à Hungria. Em dezembro foi sacramentado um auxílio de US$ 2,35 bilhões à Letônia. Em janeiro foi a vez de atender à Bielo-Rússia, com um pacote de US$ 2,46 bilhões. Os programas incluem ações de estabilização fiscal, de ajuste do balanço de pagamentos e de arrumação do setor financeiro, mas o quadro econômico e financeiro da maior parte dos países do Leste Europeu piorou nos últimos meses. Na Polônia, a produção industrial de janeiro foi 14,9% inferior à de um ano antes. Mais uma vez, portanto, o Brasil aparece bem na comparação com outros emergentes. A situação seria outra - com a inflação mais alta e os fundamentos muito mais frágeis - se o governo tivesse começado, há alguns anos, a seguir o receituário dos chamados desenvolvimentistas.

, O Estadao de S.Paulo

20 de fevereiro de 2009 | 00h00

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