Falta ir além da retomada

País sem dúvida saiu do buraco, de forma lenta, mas segura, e os novos números sustentam a expectativa de um crescimento próximo de 3% em 2018

O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 03h03

O Brasil fechou 2017 com atividade bem mais vigorosa que a de um ano antes, especialmente na indústria de transformação e no comércio, segundo o Monitor do PIB, indicador publicado mensalmente pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). O País sem dúvida saiu do buraco, de forma lenta, mas segura, e os novos números sustentam a expectativa de um crescimento próximo de 3% em 2018. A expansão de 1% prevista para 2017 pode ter sido superada, segundo o responsável pelo indicador, Claudio Considera. Os dados mais animadores são os dos meses finais. Em novembro, o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,3% maior que o de outubro. No trimestre móvel encerrado em novembro, a produção agregada foi 2,2% superior à de igual período de 2016, com destaque para a indústria de transformação (+5,1%), para o comércio (+5,3%) e para os transportes (+4,5%).

A atenção a esses dados é essencial para a avaliação dos avanços acumulados em 2017. Nos 12 meses terminados em novembro, o PIB cresceu 0,8%, de acordo com o Monitor. Excluída a agropecuária, o crescimento ficou em 0,2%. Este cálculo inclui uma contração de 0,1% na produção industrial e um avanço de apenas 0,1% nos serviços. Mas os números do trimestre setembro-novembro acrescentam dinamismo à história, mostrando um significativo movimento de recuperação da indústria na segunda metade do ano e especialmente a partir de setembro.

Os números são igualmente animadores quando se considera o lado da demanda, isto é, a forma de uso dos bens e serviços postos à disposição das famílias, empresas e governo. No período de setembro a novembro, o consumo das famílias foi 3,5% superior ao do período correspondente de 2016. O estímulo assim transmitido ao setor produtivo, especialmente à indústria, é evidente.

Que a demanda fosse puxada pelo consumo era esperado. Esse movimento seria favorecido pela relativa preservação do ganho familiar, graças ao forte recuo da inflação, e pelo aumento da massa de rendimentos, vinculado à expansão de oportunidades de trabalho (apesar do desemprego ainda muito alto). Mas outro componente da demanda, o investimento produtivo, medido como formação bruta de capital fixo, acabou pesando mais do que se imaginava inicialmente.

Segundo o Monitor, o investimento realizado no trimestre móvel até novembro superou por 3,3% o contabilizado no mesmo intervalo de 2016. Do lado da oferta, a produção de máquinas e equipamentos, em expansão desde o começo do ano, já vinha apontando maior demanda de bens de capital. No trimestre setembro-novembro, o total produzido foi 13,2% maior que o de um ano antes. O aumento da exportação desses produtos seria insuficiente para explicar a maior fabricação. Deve ter começado - esta ainda parece a melhor hipótese - um movimento inadiável de reposição e de substituição de máquinas e equipamentos. Seria difícil, de outra forma, dar conta dessa demanda num ambiente de capacidade ociosa ainda muito alta na maior parte das indústrias.

Mas o investimento em obras continua muito fraco. Apesar de alguma melhora, a construção, no trimestre até novembro, ficou 2,4% abaixo do nível observado um ano antes. Também esse descompasso entre os dois tipos de formação de capital fixo vinha sendo apontado por outras pesquisas. A estagnação das obras públicas é a explicação óbvia. De toda forma, a recuperação do investimento, embora parcial e calculada a partir de uma base muito baixa, é um dado animador. Se as perspectivas de crescimento geral da economia se mantiverem nos próximos meses, mais empresários voltarão a investir, contribuindo para reforçar a expansão da economia, neste ano, e para o aumento do potencial produtivo. Sem isso, será impossível fazer o PIB crescer mais velozmente e com segurança nos anos seguintes.

Não basta sair da recessão e retomar um crescimento modesto. Más políticas corroeram, durante longo período, a capacidade produtiva do País. O conserto tem de incluir, entre outras providências, a recuperação das finanças públicas.

 

 

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