Faltou definição no G-20

Os ministros de Finanças do Grupo dos 20 (G-20) anunciaram a disposição de fazer tudo o que for necessário para combater a crise e restabelecer o crescimento da economia mundial, mas assumiram pouquíssimos compromissos quanto a planos de ação imediatos. Reunidos no fim de semana para preparar a reunião de chefes de Estado marcada para o dia 2 em Londres, ministros e presidentes de bancos centrais das maiores economias desenvolvidas e emergentes emitiram um comunicado redigido com palavras fortes, mas sem números nem definições sobre temas cruciais, como, por exemplo, o destino a ser dado aos chamados ativos tóxicos dos bancos. Muitos economistas têm defendido a estatização temporária de grandes bancos em dificuldades e a criação de instituições especiais para absorver os créditos de baixa qualidade. O governo americano tem hesitado em seguir esse caminho. O comunicado inclui, no entanto, o compromisso de enfrentar os problemas do sistema financeiro, recapitalizar os bancos, cuidar dos ativos ruins e garantir a solidez das instituições "sistemicamente importantes", aquelas que, se falirem, arrastarão muitas outras para o desastre. Nessa área, os europeus têm sido bem mais ativos e audaciosos que o governo dos Estados Unidos. Em contrapartida, os europeus são agora mais cautelosos quanto a medidas fiscais de estímulo à economia. Preferem ver o efeito dos programas já lançados antes de continuar sangrando o orçamento. Divergências como essas não transpareceram nos documentos divulgados no fim da reunião. A recuperação do sistema bancário, reconheceram os ministros e dirigentes dos bancos centrais, é condição para o restabelecimento dos empréstimos - sua "prioridade-chave neste momento". Como a situação dos bancos continua incerta, cresce a importância das instituições multilaterais, como o FMI e o Banco Mundial. Os participantes do encontro do fim de semana reconheceram uma "urgente necessidade" de aumentar substancialmente os recursos do FMI. Também afirmaram que será necessário garantir que todos os bancos multilaterais de desenvolvimento disponham de mais capital. Não definiram, no entanto, quanto recurso adicional será destinado ao FMI nem como o dinheiro será canalizado para a instituição. Desde o início da crise o Fundo aprovou programas de ajuda no valor de cerca de US$ 55 bilhões, cerca de um quinto de seu estoque de recursos. O diretor-gerente da instituição, Dominique Strauss-Kahn, tem defendido a ampliação dos recursos para cerca de US$ 500 bilhões. Os europeus já se mostraram dispostos a apoiar esse aumento e o governo americano foi mais longe, propondo a elevação do montante para US$ 750 bilhões. Não há números no comunicado emitido pelos participantes da reunião, mas parece razoável esperar um acordo sobre a duplicação do dinheiro disponível para o FMI. Os ministros do Bric - Brasil, Rússia, Índia e China - emitiram um comunicado paralelo, no entanto, afirmando que só participarão do aumento de recursos do Fundo se os emergentes tiverem mais voz no FMI. A China, de fato, já conseguiu um aumento substancial de sua cota e de seu poder de voto, quando foi iniciada a revisão das participações, e não teria motivo para fazer essa nova cobrança.O acordo quanto à urgência de reforçar o caixa do FMI e de outras instituições multilaterais foi o resultado mais promissor da reunião. O Fundo já está em ação, com programas de ajuda a vários emergentes atingidos pela crise, e está tecnicamente preparado para atender às necessidades de outros países. Além disso, espera-se que venha a desempenhar um papel importante na avaliação das condições dos mercado financeiro, na emissão de alertas e no acompanhamento das políticas adotadas contra a crise. Os ministros concordaram, naturalmente, em combater todas as formas de protecionismo, em manter mercados abertos ao comércio e ao investimento. Esse acordo já havia sido anunciado em novembro, na reunião de chefes de governo do G-20. O compromisso ficou nas palavras. Medidas protecionistas já haviam sido adotadas e continuaram a ser tomadas depois desse encontro. Nada permite supor que sejam abandonadas agora.

, O Estadao de S.Paulo

17 de março de 2009 | 00h00

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