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'Fargo', um roteiro sul-americano

Acostumado a escrever torto por linhas tortas, o governo federal, incapaz de combater a inflação por métodos sérios, convenceu o governador paulista e o prefeito de São Paulo a limitar o reajuste, já com atraso, das tarifas de trens, metrô e ônibus. Já havia feito isso, no começo do ano, quando a alta de preços acumulada em 12 meses furava o limite de tolerância, 6,5%. Agora, o aumento nominal nem de longe acompanha a inflação, mas a perda será atenuada com a suspensão da cobrança de PIS/Cofins sobre o transporte coletivo. A medida valerá para todo o País, em mais uma improvisação.

ROLF KUNTZ, O Estado de S.Paulo

25 Maio 2013 | 02h05

Cortar tributos pode ser muito bom para consumidores e empresas, mas só um governo irresponsável e trapalhão age dessa forma. É mais uma demonstração de como os erros tendem a amontoar-se e a gerar mais distorções quando as pessoas preferem cuidar dos problemas pelo facilitário.

Na Argentina, a presidente Cristina Kirchner convocou movimentos sociais e especialmente organizações juvenis - sim, há uma juventude kirchnerista - para vigiarem o comércio e denunciarem os desvios da política oficial de preços, complicada com mais uma fase de congelamento. Empenhado em permanente campanha eleitoral, o governo decidiu frear pelo método mais tosco, e mais ineficiente, as prováveis pressões inflacionárias derivadas dos novos aumentos salariais e de outros benefícios. Só esses benefícios lançarão 16,8 bilhões de pesos no mercado de consumo, segundo o jornal La Nación. Marretar os índices de inflação, uma prática iniciada no tempo do presidente Néstor Kirchner, é muito mais fácil que conter de fato os preços encontrados pelo consumidor em suas compras.

Na Venezuela, o governo anunciou a importação de 50 milhões de rolos de papel higiênico para atenuar uma penosa escassez no mercado interno. As intervenções em nome da gloriosa revolução bolivariana já resultaram em problemas variados de abastecimento e num aumento brutal da importação de comida. O governo venezuelano arrasou a produção agrícola nacional e submeteu as cadeias internas de distribuição a um controle cada vez mais estrito e, naturalmente, com efeitos cada vez mais desastrosos. Isso explica boa parte do aumento das exportações brasileiras de alimentos para o mercado bolivariano. Os produtores colombianos também entraram na festa. Mas os pagamentos voltaram de novo a atrasar, porque, na Venezuela, as autoridades julgaram conveniente racionar o uso de dólares.

A Argentina perdeu posições como exportadora de trigo, por causa das muitas bobagens cometidas pelo governo, e a Venezuela, apesar de suas enormes reservas de petróleo, tem problemas para custear as compras no exterior. De tempos em tempos aparecem notícias de atrasos na liquidação das contas venezuelanas. Segundo cálculo recente, divulgado nesta semana pelo Valor, as contas penduradas pelos importadores chegam desta vez a US$ 9 bilhões. Exportadores brasileiros são credores de US$ 1,5 bilhão.

Parece justo creditar as realizações mais notáveis à dinastia Kirchner. Para disfarçar a inflação o governo falsifica indicadores há vários anos e proíbe a divulgação de cálculos independentes. Também tem congelado preços e dificultado exportações com impostos e cotas. A valorização do peso, parte da política de marretação de índices de preços, mina o poder de competição do país.

Com essas lambanças, o país passou de 3.º maior exportador de carne em 2005 para 11.º, atrás do Paraguai (10.º), do Uruguai (8.º) e muito longe do Brasil, superado apenas pela Austrália. Nesse período, o rebanho argentino encolheu, a oferta diminuiu e a carne encareceu no mercado interno.

Durante anos, o Tesouro argentino, sem acesso ao mercado, só conseguiu rolar seus títulos graças à colaboração do presidente Hugo Chávez, quando a Venezuela tinha petrodólares para gentilezas como essas. Atualmente o governo bolivariano tem de se preocupar com outro tipo de papel, negociado fora do mercado financeiro, mas nem por isso desimportante. Mas até a escassez desse material foi convertida em sinal de progresso pela retórica oficialista. Segundo o diretor do Instituto Nacional de Estatísticas, Elias Ejuri, a demanda de papel higiênico cresceu nos últimos anos porque, graças à revolução bolivariana, "as pessoas estão comendo mais". Nem o Indec argentino, encarregado de maquiar a inflação, se tem mostrado tão criativo.

No Brasil, o alto nível de emprego e a expansão da massa de rendimentos têm resultado em maiores importações, porque a política oficial, embora o governo afirme o contrário, tem estimulado muito mais o consumo que a produção. A capacidade produtiva continuará baixa por alguns anos, porque o investimento, mesmo com alguma expansão em 2013, permanece inferior a 20% do produto interno bruto (PIB). Com isso o potencial de crescimento sustentável dificilmente passará de 3,5% ainda por alguns anos. Se nada mudar para valer, continuarão as pressões inflacionárias e a deterioração das contas externas, Mantidos os vícios, o governo continuará improvisando remendos tributários e intervindo nos preços, inspirado, talvez, pelo exemplo argentino, mas sem condições políticas de falsificar estatísticas e controlar o varejo.

Os governos argentino, brasileiro e venezuelano têm seguido um roteiro comum, abandonado por outros países da região. A linha básica é a do filme Fargo, dos irmãos Coen. Um vendedor de carros em apuro financeiro contrata dois bandidos para forjar um sequestro de sua mulher. O plano é pedir ao sogro um resgate de US$ 1 milhão. O plano dá errado, ocorrem três mortes e cada nova mentira para contornar a burrada complica a situação. É um tratado notável de política econômica.

 ROLF KUNTZ É JORNALISTA

 

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