Faxina no passado

A reunião era para durar 45 minutos. Durou duas horas e meia. No fim, todos os convidados saíram "com um sorriso de lado a lado", relatou um deles. O público foi privado da oportunidade de contemplar a cena porque não foram permitidas imagens do encontro - havia, de fato, motivos de sobra para isso. Afinal, estava ali no Palácio do Planalto com a presidente Dilma Rousseff o ex-ministro dos Transportes e cacique-mor do inapropriadamente intitulado Partido da República (PR), senador amazonense Alfredo Nascimento. Ao seu lado, figuras carimbadas do quilate do líder da sigla na Câmara dos Deputados, Anthony Garotinho, do Rio de Janeiro, e do vice-líder no Senado, Antonio Carlos Rodrigues, eleito por São Paulo. Havia também, em sentido figurado, mas dominando o ambiente, uma vassoura - para varrer o passado.

O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2013 | 19h59

Em julho de 2011, Alfredo Nascimento teve de se demitir dos Transportes ao se tornar pública a existência de um esquema de superfaturamento em obras rodoviárias. Em seguida, outros sete funcionários da pasta foram afastados de uma tacada só. Depois de encarniçada resistência, caiu ainda o todo-poderoso diretor-geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot. No fim das contas, foram 24 as demissões. Em represália, os 5 senadores e 34 deputados republicanos (vá lá o termo) debandaram da enxundiosa base governista no Congresso. A presidente até que tinha tentado conter o estouro, nomeando para o lugar de Nascimento outro peerrepista, Paulo Passos, secretário executivo do Ministério. Mas a cúpula do partido repeliu o agrado. Primeiro, porque não o havia indicado. Segundo, porque entendia que ele só se filiara ao PR para garantir uma boquinha nos Transportes.

Nascimento foi o segundo ministro defenestrado por Dilma. O primeiro foi Antonio Palocci, da Casa Civil, pelas consultorias milionárias que aprontou nos anos anteriores. Além deles caíram, igualmente acusados de envolvimento em irregularidades: Wagner Rossi, da Agricultura; Pedro Novais, do Turismo (ambos do PMDB); Orlando Silva, do Esporte (PC do B); e Carlos Luppi, do Trabalho (PDT). A "faxina", como a sequência de demissões ficou conhecida, premiou a presidente com invejáveis índices de popularidade. Agora, como os pais dizem às crianças insistentes, acabou. Não a aprovação, regada pelos números do emprego e renda. Mas o alardeado compromisso de Dilma com a ética no governo. Se esse fosse o seu norte, não abriria o Planalto a Nascimento para passarem, sorrindo de lado a lado, uma esponja no passado que o condenou.

Os tempos, porém, são outros. A economia do pibinho e o crescimento do PSB do governador pernambucano Eduardo Campos, alimentando os seus projetos presidenciais, mexem com a sempre volúvel lealdade da base parlamentar aliada. Evidentemente orientada pelo patrono Luiz Inácio Lula da Silva - cujo acendrado pragmatismo e amnésia seletiva mereciam figurar no Livro Guinness de Recordes -, Dilma mandou às favas os presumíveis escrúpulos de consciência e deu um abraço "republicano" em Nascimento e corriola. Sem falar na sucessão de 2014, nestes tempos bicudos, com o PMDB no comando da Câmara e do Senado, e impando de vontade de mostrar ao Planalto quem é quem, 39 votos a mais no Congresso não são de jogar fora. Valem a restituição dos Transportes aos que, antes do surto faxineiro da presidente, agiam como seus donos.

É como disse o sabido Garotinho, antes do encontro de reconciliação com Dilma. "A gente só quer uma definição: se é governo ou se é oposição. Somos políticos. O PT tem ministério. O PMDB tem ministério." O nome para o PR é o do senador mato-grossense Blairo Maggi, o rei da soja, que nos últimos dias esteve duas vezes com Dilma, além de se avistar com Lula. Acontece que, se política fosse uma coisa simples, qualquer um fazia. Maggi é do PR, ma non troppo, resmungam os correligionários. Uma alternativa seria dar a Maggi a Agricultura. Mas, então, Dilma teria de recompensar o PMDB, que detém a pasta na pessoa do deputado gaúcho Mendes Ribeiro - e quer outras. Lula, mais versado nesse gênero de negócio, decerto mostrará a Dilma o caminho das pedras que conduz a 2014.

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