Fazer mais contra a dengue

Nas oito primeiras semanas deste ano foi registrado mais do que o dobro de casos suspeitos de dengue no Brasil, se comparado com idêntico período do ano passado: 174.676 contra 73.176 nos dois primeiros meses de 2014, alta de 139%. Com 11.876 no ano passado e 94.623 em 2015, as notificações no Estado de São Paulo cresceram 697% e são 54% do total nacional, mais do que o dobro da proporção da população em relação à do País. Nele também foi registrado o maior número de mortes causadas pela doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti: 32, uma delas na capital - uma mulher de 84 anos, na Freguesia do Ó, na zona norte, onde é maior a incidência na cidade este ano. Suspeita-se ainda que o óbito de um homem também de 84 anos tenha resultado do mal.

O Estado de S.Paulo

12 Março 2015 | 02h05

Nos últimos anos, as estatísticas têm sido superlativas, mas o tratamento dado pelas autoridades sanitárias não vão além do ramerrão e isso também provoca apreensão.

A proliferação do inseto, que ocorre em água parada, tem sido um desafio para os agentes de saúde encarregados de prevenir a dengue. A incidência concentra-se no verão, aumentando na primeira metade do ano e diminuindo de junho em diante. A explicação para isso é que as chuvas do período favorecem o aumento das poças d'água, e a população não se previne adequadamente. Neste verão, contudo, a justificativa se inverteu: como choveu muito abaixo da média na virada do ano, quando ocorreram temperaturas mais altas e um índice de umidade da atmosfera menor, o cidadão passou a ter o hábito de armazenar mais água em cisternas, em tanques e até em baldes para suprir a falta de água nas torneiras.

Ao anunciar na semana passada o balanço da incidência em janeiro e fevereiro, o ministro da Saúde, Arthur Chioro, afirmou que, além da falta de proteção no armazenamento por causa da crise hídrica, as altas temperaturas ocorridas neste verão podem também ser apontadas como grandes vilãs, pois o calor favorece a proliferação do agente transmissor. Aos fatores climáticos o ministro acrescentou, desta vez, falhas das prefeituras na ação de combate à doença. "Tem regiões que não estão fazendo a lição de casa, tanto na prevenção como no atendimento a casos suspeitos. O período da seca é uma agravante, mas não podemos colocar a culpa em São Pedro se não fizermos a prevenção", reconheceu ele.

A franqueza de Chioro é, no fundo, o reconhecimento de que tem sido cômodo considerar a questão climática, que ninguém - prefeituras, Estados, a União e o cidadão - controla. Mas de pouco serve só inculpar as prefeituras, que não podem arcar sozinhas com a tarefa que até agora não tem sido realizada a contento por nenhum dos entes federativos. Se os municípios não estão dando conta do recado, cabe às Secretarias Estaduais da Saúde e ao Ministério arregaçarem as mangas e usarem sua estrutura para capacitá-los na guerra que, sendo perdida pelos órgãos públicos, faz a população adoecer.

Casos como o de Catanduva, no interior de São Paulo, onde a dengue pode ter matado este ano 18 pessoas (6 mortes já foram confirmadas), deveriam, no mínimo, servir de alerta para Arthur Chioro e o secretário estadual de Saúde de São Paulo, David Uip, procurarem com mais empenho e frequência meios para conter o avanço do estrago feito pelo Aedes aegypti. Ali a situação chegou a ponto de a prefeitura ter sido autorizada a invadir casas fechadas e desabitadas para destruir criadouros. Com o crescimento de 47,9% de casos confirmados apenas nesta semana, Catanduva é a sétima cidade mais afetada do Estado, com 5,6 mil casos por 100 mil habitantes. Se nem a instalação de um hospital de campanha, que atendeu 5 mil pacientes, um laboratório e uma ala para hidratar doentes na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) resolveu o problema dessa cidade, o que faz Chioro e Uip imaginarem que a distribuição de folhetos informativos sobre o que cada pessoa deve fazer, assim como a capacitação de funcionários do sistema de saúde, podem mudar esse cenário? É preciso fazer mais - muito mais.

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